"Era capaz de vestir Melania Trump?" Esta é a pergunta que está a dividir o mundo da moda

Não é apenas Donald Trump que tem dificuldade em conseguir artistas para atuar na sua tomada de posse. Melania Trump também não parece reunir consenso no mundo da moda e já houve estilistas que recusaram trabalhar com a futura Primeira Dama dos Estados Unidos.

O dia de tomada de posse de Donald Trump é sexta-feira. Além de toda a tinta que tem corrido em torno do futuro presidente dos Estados Unidos, também Melania Trump foi apanhada no fogo cruzado. Quem vai vestir a futura Primeira Dama americana neste dia tão importante?

A pergunta impõem-se e à partida é muito mais complexa do que apenas uma questão de estilo. De uma forma cada vez mais vincada, as escolhas que envolvam o nome de Donald Trump estão envoltas em polémica.

A vitória muito pouco consensual de Trump, sobretudo em Hollywood, no mundo da música e agora na indústria da moda, tem alimentado polémicas atrás de polémicas. E Melania Trump está a sofrer os danos colaterais.

Melania Trump

Neste caso, não se trata de marchas de protesto com a presença de celebridades mas, tal como aconteceu com os artistas convidados para atuar na cerimónia de tomada de posse, também há estilistas que se recusaram vestir aquela que vai ser a Primeira Dama dos Estados Unidos.

Cronologia de um estilo

A tomada de posição começou com Sophie Theallet, a responsável pelo guarda roupa de Michelle Obama nos últimos oito anos, e que já vestiu celebridades como Alicia Keys e Kim Kardashian, que numa carta aberta publicada em novembro, anunciou que não ia vestir Melania Trump e incitou outros estilistas a fazerem o mesmo. “A retórica de racismo, sexismo e xenofobia utilizada pelo seu marido na campanha presidencial são incompatíveis com os valores pelos quais nos regemos”, explicou a estilista. E concluiu: "A integridade é a nossa verdadeira moeda".

Poucos dias depois Tommy Hilfiger veio a praça pública defender Melania, afirmando que os estilistas não deviam tornar esta situação um assunto político. "A Melania é uma mulher muito bonita e eu acho que qualquer estilista devia sentir-se orgulhoso em poder vesti-la", acrescentando que "Ivanka é igualmente bonita e inteligente, apesar de vestir a sua própria marca", afirmou à comunicação social durante o evento "Angel Ball".

Os ânimos mantiveram-se calmos por uns dias. No entanto, a entrevista de Tom Ford no programa de televisão The View veio dar novo fôlego ao tema. Ford declarou que já tinha recusado vestir Melania em ocasiões anteriores e que a futura Primeira Dama não é a sua imagem.

Por essa altura a revista de moda WWD decidiu colocar a questão a nove estilistas: "Era capaz de vestir Melania Trump?"

Marc Jacobs, apoiante convicto de Hillary Clinton, afirmou categoricamente que não. O estilista assumiu não ter "qualquer interesse em vestir Melania Trump", acrescentando: "prefiro usar a minha energia para ajudar aqueles que serão lesados por Donald Trump e pelos seus apoiantes".

Por outro lado Diane von Furstenberg assumiu uma posição mais neutra lembrando que Donald Trump era o Presidente eleito pelos americanos. "A Melania merece o mesmo respeito que qualquer outra Primeira Dama antes dela. O nosso papel enquanto membros da indústria da moda é promover a beleza, a inclusão e a diversidade. Devemos ser a melhor versão de nós próprios e influenciar os outros pelo nosso exemplo", explicou.

Cynthia Rowley relembrou ainda que neste debate a questão torna-se irrelevante uma vez que Melania Trump tem a liberdade de escolher a roupa que quiser, comprando-a. "Só porque ela aparece com a roupa de determinado estilista isso não quer dizer que esse estilista a está a apoiar, ao marido ou aos seus ideais", explicou.

Se Thom Browne e Vera Wang assumiram que não tinham problemas em vestir Melania Trump, por respeito ao cargo, o mesmo não aconteceu com Derek Lam, Phillip Lim ou Christian Siriano.

A marca Dolce & Gabbana juntou-se a  Tommy Hilfiger, Diane Von Furstenberg, Thom Browne e Vera Wang, depois de Stefano Gabbana ter elogiado a escolha de vestido de Melania Trump para a noite de passagem de ano.

Também Carolina Herrera, que numa primeira fase não se quis pronunciar sobre o assunto, declarou que iria vestir Melania Trump caso seja escolhida, assumindo que sente muito orgulho em já ter vestido outras Primeiras Damas do país. E Ralph Lauren também se colocou à disposição para vestir a mulher de Donald Trump.

A tomada de posse

No entanto a dúvida mantém-se: Quem vai vestir Melania Trump na tomada de posse?

Naeem Khan, estilista americano, natural da Índia, que vestiu Michelle Obama em algumas ocasiões, assumiu ter sido abordado sobre esse assunto mas que recusou a oportunidade. "Todos os estilistas têm um ponto de vista", afirmou em entrevista à Associated Press acrescentando que "um estilista é um artista que deve ter a opção de escolher quem ele quer vestir". Na opinião de Khan, Melania Trump pode ser uma ótima pessoa mas "os valores desta administração não combinam com aquilo que nós somos enquanto país".

Apesar de haver muita especulação a WWD avança que o guarda roupa da futura Primeira Dama vai ter a mão de um duo dinâmico: Ralph Lauren e Karl Lagerfeld.

A publicação explica que, apesar de Lauren ter sido o estilista escolhido por Hillary Clinton em diversas ocasiões, a marca sempre se tentou manter longe de questões políticas, sendo Ralph Lauren um estilista de eleição de Melania Trump, ao ter usado por exemplo um macacão branco da marca para assistir ao discurso de vitória do marido.

Donald Trump elected US President

Quanto a Karl Lagerfeld, a WWD relembra que se há oito anos seria considerado um "crime" uma Primeira Dama americana escolher um estilista que não fosse norte-americano, Michelle Obama abriu um precedente ao escolher o canadiano Jason Wu como o autor dos vestidos que usou nos dois bailes de tomada de posse, em 2009 e em 2013.

O baile inaugural

Apesar do trabalho que desenvolveu em conjunto com nomes mais desconhecidos do mundo da moda americana, como foi o caso de Sophie Theallet, Michelle Obama também transformou a Primeira Dama dos Estados Unidos numa cidadã do mundo abrindo caminho para o exterior. Melania Trump pode vir a aproveitar essa oportunidade a avaliar pelo sentimento anti-Trump que se sente entre os estilistas americanos.

A WWD assume que seria pouco lógico elogiar a posição desses estilistas e depois criticar uma possível escolha de Melania além fronteiras, quando são os estilistas internacionais que lhe estão a estender a mão.

A aposta da revista vai para a escolha de Ralph Lauren para a roupa a usar durante o dia e de Karl Lagerfeld para o vestido de gala, num modelo que aqui suscita dúvidas pois a escolha tanto poderá ter a assinatura da casa Chanel, onde é diretor criativo, da Fendi, onde tem uma colaboração, ou em nome próprio, com a sua marca.

"Por uma noite, esse é o vestido mais importante em todo o país", afirmou Melinda Machado, porta-voz do Museu Nacional de História Norte-Americana, em 2013, na segunda tomada de posse de Barack Obama. Apesar de não haver confirmações até ao momento, a verdade é que até agora também ainda não aconteceram desmentidos.

Seja qual for a escolha de Melania, Carl Sferrazza Anthony, historiador do First Ladies National Historic Site, defende que a política aproximou-se do mundo da moda de uma forma nunca antes vista no país. "Esta é a primeira vez que este momento é usado por profissionais da indústria da moda como uma oportunidade para assumir em público as suas opiniões políticas", afirmou à Associated Press.

Apesar de ser um exemplo perfeito para esta indústria - Melania é alta, magra, bonita e o sonho de qualquer estilista para exibir as suas roupas - a única certeza é que a futura Primeira Dama vai precisar de dois guarda roupas diferentes para o dia 20 de janeiro. A prova dos nove acontece esta sexta-feira.

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