Cancro e desporto: a importância do exercício físico antes e depois de um tumor

No cancro, a genética não é o mesmo que herança. Embora esta patologia responda a alterações que ocorrem nos genes, essas mudanças não são necessariamente devidas a uma história familiar: uma alteração pode ocorrer numa pessoa num determinado momento e apenas entre 5 e 10% dos tumores respondem a uma origem hereditária. Um artigo de Luis Alvarez, doutorado em Ciências Biológicas pela Universidade Autónoma de Barcelona.

Aqui radica a importância dos hábitos de vida saudáveis, entre eles encontra-se o exercício físico, que terá um peso muito significativo para o cancro, tanto nas fases anteriores ao seu desenvolvimento (prevenção), quanto quando o paciente já foi diagnosticado com a doença e está ou esteve na fase de tratamento. Uma das dúvidas que essas pessoas enfrentam é o fato de poderem ou não praticar desporto e, em princípio, não só será possível, mas também é aconselhável.

Prevenção e melhoria da qualidade de vida

Do ponto de vista da prevenção, a obesidade está ligada ao cancro, e aqui o exercício físico pode ser uma ajuda. Isso é claramente observado em mulheres que estão na fase de menopausa, quando, ao perder a função do ovário, o estrogénio é produzido no tecido adiposo abdominal, de modo que as mulheres com obesidade têm níveis mais elevados de estrogénio e são mais propensas a desenvolver cancro de mama e útero. O excesso de gordura nos homens também aumenta os níveis de estrogénio, favorecendo o aparecimento de hiperplasia benigna e adenocarcinoma da próstata.

Mas o cancro de mama não é o único que pode ver sua incidência reduzida com a prática de exercício físico. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, o ACSM (American College of Sports Medicine) e o American Institute for Cancer Research também falam de um aumento na evidência científica sobre a redução do risco de desenvolver muitos tumores graças à prática de atividade física.

Acrescentam ainda à lista de tipos de cancro relacionados com a falta de exercício o cancro do cólon, mama, endométrio, rim e esófago, devido à obesidade e à adiposidade central; bem como adenocarcinoma esofágico, cancro do cólon e reto, rim, pâncreas e também endométrio, devido à vida sedentária.

É claro que o exercício corporal tem uma tarefa crucial desde o início: pode-se dizer que ele produz saúde. Na verdade, estudos indicam que, no caso do cancro de mama, o efeito protetor é mais efetivo nas mulheres na fase pré-menopausa do que naqueles na fase pós-menopausa, que precisam fazer um exercício mais intenso para obter o mesmo nível de cuidados.

Por outro lado, a atividade física pode aliviar a fadiga causada por tratamentos ao cancro em 70% dos casos, e é um alívio que às vezes não é experimentado com o repouso. A LPCC (Liga Portuguesa Contra o Cancro) afirma que a prática do exercício pode beneficiar as pessoas durante os tratamentos oncológicos e que um exercício físico moderado melhora a fadiga, ansiedade e a autoestima, como também tem benefícios para a força muscular e composição corporal. Por sua vez, pode ajudar a diminuir o risco de recidiva da doença e a aumentar a sobrevida.

No setor da saúde, também são mencionados outros benefícios, como o aumento das defesas, a aceleração da recuperação após a cirurgia e a melhoria da autoestima e da motivação.

O ‘The New York Times’ falou também sobre os benefícios no sistema muscular e redução de efeitos secundários de alguns tratamentos no coração e na medula óssea. Além disso, vários especialistas já concluíram que o exercício pode diminuir o risco de recidiva do cancro da mama em praticamente metade das mulheres que sofreram desta doença.

Como incorporar o desporto na rotina de uma doente com cancro

Uma vez vista a importância do desporto face ao cancro e uma vez recebido o diagnóstico, podemos perguntar-nos: "Como colocamos o hábito de exercício em prática?". Do ponto de vista do doente, a Liga Portuguesa Contra o Cancro -LPCC - aconselha realizar uma atividade física de intensidade moderada pelo menos cerca de 150 minutos por semana ou 75 minutos se a atividade for mais intensa.

Importa ainda evitar o comportamento sedentário, tal como passar muito tempo sentado, deitado ou a ver televisão, por exemplo. Algumas dicas simples seriam, como é aconselhável para a população em geral, não usar o transporte para ir a lugares próximos e caminhar num ritmo acelerado, parar numa paragem imediatamente antes do destino final e seguir a pé e usar as escadas, dar uma volta acompanhada por um familiar ou amigo e tomar muitos líquidos para evitar a desidratação.

O primeiro conselho, antes de iniciar qualquer atividade, é consultar o oncologista sobre a possibilidade de realizar algum tipo de exercício físico. Em geral, é aconselhável fazê-lo, mas cada tumor é diferente e os cuidados a ter também. Um exemplo são os casos de anemia, em que a contagem de glóbulos vermelhos é baixa e, como consequência, a capacidade do organismo para transportar oxigênio para os tecidos é reduzida.

Do ponto de vista dos centros e organizações, uma parte do setor solicita iniciativas para que os profissionais tenham conhecimento na área desportiva e aconselhem os doentes sobre este assunto já numa primeira consulta. Além disso, existem familiares que querem saber mais para determinarem o melhor exercício para cada tipo de cancro.

Nesta altura, os Estados Unidos já estão a considerar fortemente o exercício físico e a ACSM e a ACS (Sociedade Americana de Cancro) contam com um programa de certificação para os treinadores que queiram trabalhar com doentes que tenham tido cancro.

Um artigo escrito por Luis Alvarez, doutorado em Ciências Biológicas pela Universidade Autónoma de Barcelona 

artigo do parceiro: Nuno de Noronha

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