“É caótica e assustadora a forma como o mundo está a ser alimentado”, defende nutricionista Magda Roma

Salmão, carnes brancas, vegetais, trigo…No mundo alimentar, a fronteira que separa o vilão do herói não está tão bem definida como tendemos a considerar. É com a nutricionista Magda Roma que, nesta conversa, fazemos a prova dos nove das armadilhas alimentares.

Nos dias que correm o comum cidadão é exposto a milhares de mensagens e informação, muita dela contraditória, sobre os benefícios e malefícios no consumo de alimentos. “Não beba leite, pois é péssimo!”, “Beba leite, porque é um dos alimentos mais completos”, é um dos exemplos mais comuns. Face a esta realidade, a nutricionista Magda Roma, entendeu compilar em livro informação fidedigna para fazermos escolhas alimentares conscientes, acertadas e saudáveis. É a pretexto do lançamento do livro, “O Que Faz Bem e o Que Faz Mal” que conversamos com Magda. Uma troca de palavras que é também um alerta para as armadilhas escondidas nos alimentos “politicamente corretos”, nos rótulos, na indústria alimentar e nas dietas tidas erradamente como a solução definitiva.

Magda, vamo-nos deter no título do seu livro “O Que Faz Bem e o Que Faz Mal”. Podemos afirmar que nos alimentos há o vilão e o herói? As virtudes e os defeitos estão assim tão marcadas?

Depende do alimento, alguns são vilões e outros não o são assim tanto, mas acabamos por lhes acrescentar algumas características que os tornam vilões. Uns, para os quais a Organização Mundial da Saúde (OMS)  já alertou, são os produtos de charcutaria, como por exemplo o fiambre, o chouriço, o presunto. São produtos cancerígenos do Grupo 1. Um chouriço feito de um animal que tenha pastado, comido bolota e tenha tido uma `vida feliz`, como se usa dizer atualmente, é cancerígeno devido, em concreto, à fumagem e aos compostos formados. A um alimento que devia ser saudável, tendo em conta o método de produção e a qualidade da carne, adicionamos características que são cancerígenas. O peixe é um alimento tido como saudável. Conta com uma série de minerais como o iodo, de  origem marítima. Mas hoje os mares estão contaminados com cádmio e mercúrio, o que prejudica a vida marinha. No que toca aos vegetais, como sabemos, temos a contaminação com agro-tóxicos. Uma couve insere-se numa alimentação saudável, mas se analisarmos a forma como é produzida vemos que tem compostos que podem ser muito prejudiciais.

É assustador. Parece indiferente, em termos de prejuízo para a saúde humana, o consumo de carne vermelha ou branca de produção intensiva ou um vegetal com agro-tóxicos. Certo?

Não é indiferente, os agro-tóxicos estão a ser estudados e existe uma tabela extensa onde constam os que foram abordados e estão associados a determinadas patologias. Embora ainda não se saiba bem o impacto real que muitos têm na nossa saúde. No que toca às carnes vermelhas estão classificadas como provavelmente cancerígenas do Grupo 2A. Desta forma, considero que é mais aconselhável consumirmos os vegetais, fonte de minerais e vitaminas. No que respeita à carne vermelha não obtemos as mesmas quantidades destes nutrientes.

7 formas saudáveis de preparar alimentos sem os cozinhar

Na mensagem de abertura do seu livro, fala-nos de uma “receita caseira” para ilustrar uma situação particularmente difícil. Podemos dizer que está ai a génese da sua abordagem?

Refiro-me a uma situação com que me deparei num hospital prisional com um doente com cancro em estado terminal. Rejeitava qualquer tipo de comida. Sugeri então uma “receita caseira”. Pela primeira vez em muito tempo aquele homem comeu com prazer e agradeceu com os olhos. O meu primeiro contacto com o cancro, era anterior, com a doença oncológica do meu pai. Mas foi a partir daquele momento, já nutricionista e no hospital prisional, que eu pensei que se tivermos controlo sobre a nossa alimentação e introduzirmos nas nossas refeições os elementos fundamentais para mantermos a nossa saúde, fará mais sentido do que recorrermos à restauração e aos alimentos já processados. Ou seja, há um retorno às nossas raízes, voltamos a cozinhar o que ingerimos, amamo-nos através da alimentação.

No fundo, temos de olhar para a alimentação, não como uma cura mas uma forma de evitarmos a doença.

Tal e qual. A nossa sociedade só se preocupa com o problema quando este se manifesta. Se tivermos cuidado, os problemas não surgirão ou, se surgirem, serão passíveis de tratamento.

Há uma letra sublinhada a negro logo na abertura da sua obra, o M. O que representa?

Significa Mudança. Sinto que a sociedade a procura constantemente nos vários aspectos da vida, seja no trabalho, nas relações interpessoais, no plano doméstico. Jugo que neste momento é gritante a vontade que as pessoas têm de mudar, para encontrar mais saúde, mais paz e calma. Estamos a olhar mais para o nosso eu e a tentar encontrar o equilíbrio. Saímos da era do ter, com a preocupação de mostrar aos outros, e estamos na era do ser. Eu assumi essa mudança com um ´M`. Uma chamada de atenção não só na alimentação, mas também para que todos os dias tenhamos meia hora para estarmos connosco. Seja a meditar, a dormir ou  a ler, mas ter esse momento, tentar desligar de tudo para que haja menos ansiedade.

Hoje em dia vemos crianças e jovens com diabetes, colesterol, outras patologias associadas a faixas etárias mais avançadas.

Magda, é lícito afirmar que nas sociedades ocidentais uma das grandes doenças do nosso tempo é a abundância e a disponibilidade alimentar?

Concordo. Lembro-me, em miúda, de haver o queijo cortado em meia bola ou bola, dois tipos de iogurte, porque só os sabores mudavam e uma grande quantidade de vegetais e legumes. Uma escala de oferta muito diferente da que hoje temos. A comunicação e a globalização trouxeram-nos coisas maravilhosas, mas não nos trouxeram a informação que a sociedade deveria ter no que respeita à forma como os produtos são processados. Falta a parte da educação alimentar nas escolas. Tenho esperança de que esta realidade mude nos próximos anos. Na verdade as crianças hoje alimentam-se mal porque os pais não conseguem separar a informação necessária da excedentária, dada a variedade de alimentação existente.

É caótica e assustadora a forma como o mundo está a ser alimentado

É difícil fugir a este fenómeno de globalização?

Repare, há um consumo excessivo de alimentos prejudiciais à saúde, muitas vezes chegando de territórios longínquos e transportados de uma forma não muito conveniente. Atualmente não temos só a alimentação da época. Encontramos, por exemplo, morangos o ano inteiro e ingerimos frutas exóticas com as quais, historicamente, não temos afinidades, nem integram o nosso equilíbrio alimentar, a nossa energia.

Um bom exemplo desta `contaminação` é o que se prende com os agro-tóxicos. É caótica e assustadora a forma como o mundo está a ser alimentado e como estes compostos estão a ser usados. São veneno para o nosso organismo e quem os produz admite-o,  exporta-os, embora não os venda no próprio país.

Podemos, neste sentido, afirmar que a indústria alimentar é nossa inimiga, labora contra nós?

Penso que funciona em prol da Economia. A população quer estar bem , mas a industria serve a dimensão económica. Só se desenvolve se gerar lucro.

A Magda tem particular atenção a fundamentar as suas afirmações em estudos na área. É importante a existência desta ponte entre a muita informação gerada e o público?

Sim, pessoalmente estes estudos servem-me como fundamento e esclarecem-me. A informação, quando passada para o público em geral, deve ser fundamentada. Hoje em dia encontramos estudos para todos os gostos e é preciso filtrá-los, porque muitos são comparticipados pela indústria. Ou seja, são encomendas. No Instituto Pasteur, em Paris, entidade que estuda as doenças e vacinas, 80% dos fundos são provenientes da indústria leiteira e 20% provêm do Estado. Claro que não vão falar mal do “patrão”.

Produtos de origem vegetal

A Magda desenvolve uma tese interessante, a de que muitas vezes não canalizamos o prazer, neste caso o comer, para o que é melhor para o nosso corpo, mas para os nossos interesses e impulsos. Quer explicar-nos?

Um dos prazeres do ser humano é o oral, a sensação gustativa. Compensamos um mau dia de trabalho ou uma discussão, com a comida, da mais junkie e não da mais nutricional, aquela que nos trará energia. No que toca, por exemplo, ao açúcar, refugiamo-nos no chocolate e nas bolachas, quando podíamos ingerir o açúcar da fruta, a frutose.  Preferimos o açúcar das bolachas, pois entra rapidamente na corrente sanguínea e sacia-nos. Esta é uma justificação para os nossos maus hábitos face ao estilo de vida dos dias de hoje. Não somos totalmente felizes, estamos sempre insatisfeitos e não promovemos uma mudança real. Mesmo com as nossa crianças, consideramos que lhes damos pouca atenção, logo que somos maus pais, e compensamo-las com os `docinhos`.

Estamos sempre a tempo de mudar, certo?

Os médicos fazem um esforço para ajudar os pacientes, tendo em conta o pouco tempo de duração das consultas. Eu, enquanto nutricionista, defendo-os sempre quando recebo pacientes com queixas. Os nutricionistas têm um papel de educação familiar. Recentemente recebi uma família com duas crianças, de cinco e dez anos, com maus hábitos alimentares. Desde há alguns meses estas crianças estão a fazer uma correção alimentar. É compensador ouvir os miúdos dizerem, por exemplo, “gostei muito daquele grão que a mãe fez”. Nós adultos é que pensamos que eles não gostam e não comem. Os pais têm de dar o exemplo e ser criativos.

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