O adultério existe desde que o casamento foi inventado. Existe em todas as sociedades, em todas as culturas, e em todas as épocas homens e mulheres foram escapando aos limites do casamento.

E por que razão nos continua a inquietar e a ser alvo de críticas arrebatadoras (“quem trai uma vez, trai duas ou três”) ou, por outro lado, de absoluta passividade, como se não houvesse nada a fazer (“não gosto de me sentir traído, mas prefiro não saber, acho que não há nada a fazer”)?

Infidelidade, segundo Esther Perel, psicoterapeuta belga, reúne um ou mais destes três elementos: secretismo, envolvimento emocional e alquimia sexual. O secretismo é o principal e o primeiro organizador - um caso extraconjugal vive sempre à sombra de uma relação principal. E o segredo é a principal fonte de carga erótica. É também através do segredo que quem trai sente que controla e que tem autonomia.

Por outro lado, a imprevisibilidade do local de encontro, o risco e o perigo imprimem uma energia extra ao caso extraconjugal. O envolvimento emocional, quando existe mais ou menos ligação emocional entre o casal em transgressão, e a alquimia sexual, que diz respeito à linha do erotismo onde um beijo ou um olhar pode despertar um maior desejo e ligação que uma noite louca de sexo.

A traição pode apresentar-se como uma ameaça à nossa segurança emocional, uma ameaça à nossa identidade

No casamento atual - onde existe um contrato romântico, as expetativas que temos em relação ao nosso parceiro ou nossa parceira, e a nós mesmo, é a de sermos os/as melhores amantes, o melhor pai/ a melhor mãe. Aquilo que somos passa também pelo casamento que temos, pela relação que estabelecemos. Como tal, a traição passa a ser sentida como uma ameaça à nossa segurança emocional, uma ameaça à nossa identidade. “Já não sou o melhor/já não sou o especial e único”.

Então, se escolhemos casar por amor, porque é que a traição veio para ficar? Porque é que traímos? Será a traição o fim de um casamento? E onde fica o desejo que sentimos pelos nossos maridos ou mulheres depois de alguns meses ou anos de iniciarmos a relação?

Como diria a terapeuta de casais Anne Kruez, “o desejo não se casa”, não vem quando o chamamos e por vezes não é conveniente, aparece quando não era suposto aparecer… É que a vontade de manter acesa, no nosso casamento a chama da paixão, de manter a surpresa, a aventura não é, muitas vezes, conseguida em conjunto com a também tão importante sensação segurança, calma, paz, tranquilidade e previsibilidade.

Por seu turno, ouvimos algumas pessoas exprimirem querer sentir a ligação emocional, a intensidade sexual que em tempos sentiram, tentando que a chama do desejo reapareça no casamento. Mas isto nem sempre é alcançado. É neste momento que a ideia de traição poderá surgir.

Quando a traição tropeça no nosso caminho, e é exposta, dizem-nos que é porque há algo de muito errado com o nosso casamento ou connosco. Contudo, muitos dos casais que se deparam com a infidelidade gostam um do outro e durante anos viveram fiéis às suas crenças de monogamia.

Talvez a infidelidade tenha mais a ver com o que estamos a sentir em relação àquilo em que nos tornámos dentro da nossa relação, dentro do nosso casal, às cedências que fizemos e que nos levaram para longe de nós.

Às negociações que talvez não tenhamos feito, talvez quem trai, ou quem tem essa vontade, queira verdadeiramente reencontrar a pessoa que já foi e não um novo parceiro. Talvez a ideia de infidelidade possa servir para acordar outras oportunidades para solucionar este dilema, e uma delas poderá ser encontrarmo-nos dentro da nossa relação, ultrapassar barreiras dentro da relação, investir na sexualidade dentro do nosso casamento, refletir, negociar e porque não, “infringir” dentro do nosso casamento.

Então como ficam os casais que são mesmo invadidos pela infidelidade? Como ficam quando o caso extraconjugal é revelado e exposto?

Estes casais sofrem um ataque à sua identidade, ao seu mundo e talvez seja difícil pensar de que forma poderão voltar a olhar para o mundo do casal como o olharam antes do caso extraconjugal.

Surge o choque, a raiva, o ódio e a vergonha. A pessoa traída muitas vezes inicia uma busca obsessiva de pormenores onde possa comprovar o tempo, a intensidade, a frequência e acima de tudo a ligação emocional entre a/o sua/seu companheira/o e o/a amante. Muitas vezes tenta perceber o que o/a amante poderá ter, poderá fazer ou poderá dizer que aproximou e manteve a sua mulher ou seu marido na relação.

E eis que estas pessoas nos chegam à consulta, invadidos por todas estas emoções, com a sua união virada de pernas para o ar, cheios de crítica, mas ao mesmo tempo cheios de vontade de encontrar uma compreensão e uma nova narrativa para o momento que estão a viver.

E à semelhança do que acontece com tantas pessoas que se casam mais do que uma vez, a primeira reflexão talvez possa estar relacionada com o fim do casamento que viveram até ao caso extraconjugal.

E a segunda reflexão, e pergunta, será a hipótese de voltarem a casar com a mesma pessoa com o desafio da reconstrução, da negociação, da reinvenção de um amor que sofreu um golpe muito forte e que os deixou frágeis, tristes, zangados, vulneráveis mas com esperança.

Teresa Carvalho, Psicóloga Clínica - Terapeuta Familiar e de Casal

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