"Queres matar-me?", perguntou, ainda a recuperar da proposta que tinha acabado de lhe fazer. Foi assim, em jeito de brincadeira, que o meu marido reagiu quando lhe disse que íamos entrar num programa de recuperação da vida sexual. Um plano,  traçado pela sexóloga Vânia Beliz, autora de "Ponto Quê?", publicado pela editora Objectiva, livro que promete, numa semana apenas, (e)levar a satisfação do casal aos píncaros.

As minhas explicações não o tranquilizaram. "Mas temos de fazer todos os dias?", questionou logo a seguir, continuando a manifestar dúvidas e reticências. E, desta forma, sem mais nem menos, tínhamos identificado o que nos desviou do caminho da satisfação sexual, tal como é solicitado no primeiro dia do plano. Um esquema terapêutico que pode seguir adotando algumas das posições sexuais que se seguem.

Dia 1: Refletir

"Cansaço", dissemos em uníssono. Afinal, fomos pais há nove meses e ainda não recuperámos das noites em branco que parecem não parar, mês após mês. Longe disso. Ainda hoje dormimos de quatro em quatro horas e estamos sem esperança de voltar a dormir, sem interrupções, nos próximos meses. Os mais otimistas dizem que tudo passa depois do primeiro aniversário. Vamos acreditar.

Após apontarmos a fadiga como razão principal por trás deste distanciamento, continuo interessada em apurar mais pormenores. Das tardes inteiras de sexo no sofá da sala passámos a dias, até semanas, sem nos tocarmos. Amuados um com o outro, irritados, até. Porquê? Eu, porque passo o dia inteiro entre fraldas e biberões, ele porque chega do trabalho cansado e eu ainda lhe exijo ajuda.

Isto a somar àqueles dias em que quero atenção e ele agarra-se ao comando da televisão, quer sair com os amigos e eu não aprovo ou porque chega a casa e o seu lado da cama está ocupado pela filha. Nesta noite, prometi fazer um esforço e não a deitei na nossa cama, também decidi controlar a minha fúria com as (poucas) saídas dele. Ele fez o seu papel e tratou dos biberões. Dormi como um anjo.

Dia 2: Transformar-se

Acordámos animados, como há muito tempo não acontecia. A decisão de recuperar a nossa vida sexual depressa se tornou numa prioridade. Depois de identificar o problema que, no nosso caso, foi muito fácil, cansaço, empenhei-me a cumprir as ordens da sexóloga e, ao segundo dia, subi à elíptica e pedalei meia hora, no final do dia, ainda marquei uma esfoliação corporal, uma massagem e troquei o verniz das unhas.

Senti-me revigorada. Cheia de vontade de recomeçar. Nesse dia, sentei-me no chão do quarto com a gaveta da roupa interior espalhada. Dividi a lingerie e troquei-lhe os lugares. Para a frente passaram as cuecas de renda, com pérolas e transparências, para trás, ficaram as básicas. E, nesse mesmo dia, esperei-o com o babydoll de renda preta, que me tinha oferecido no aniversário e eu nunca tinha usado. Matámos as saudades e começamos a lidar melhor um com o outro. Afinal, já nem me lembrava da nossa última noite de sexo…

Dias 3 e 4: Fantasiar e brincar

O terceiro dia sugere-nos fantasiar. Foi, talvez, a parte mais difícil. A falta de tempo e de imaginação atraiçoaram-me. Lembrei-me, contudo, de um livro, da Natália Correia, que me ofereceram no meu trigésimo aniversário, "Poesia portuguesa erótica e satírica", publicado pela editora Antígona. Arrumei-o na mesa de cabeceira, em cima de "O grande livro do bebé", publicado pela editora A Esfera dos Livros, escondendo a capa.

Depois da casa estar em silêncio, li alguns poemas para ele. Ficámos mais próximos. Ainda nos rimos e viajámos com as rimas. Ao fim do terceiro dia, começámos a falar de sexo como nos velhos tempos. Renasceu a vontade de estarmos a sós e a nossa relação mostrou-se mais sólida. Até parece que a Madalena percebeu e começou a dar-nos mais descanso. Contudo, ao fim do terceiro dia, confesso que ainda hesitava.

Ficava dividida entre uma boa noite de sono e uma tórrida noite de sexo. Mesmo assim, no quarto dia, fui à sex shop mais próxima comprar as bolas chinesas, mais conhecidas como as bolinhas do amor.

Há muito tempo que falava em experimentar, mas surgiam outras prioridades. Fiquei excitada com a ideia de fazer algo novo. Mais picante. Enviei-lhe uma fotografia minha, em lingerie, com uma mensagem provocadora. Eu sabia que era um dia de stress para ele e foi uma excelente maneira dele descontrair antes de chegar a casa.

E assim foi! Chegou mais cedo do que aquilo que era o habitual e pronto para reivindicar a minha promessa. Mas a nossa filha não nos deu hipótese. Foi uma daquelas noites malvadas, a chorar de hora em hora e, quando conseguimos finalmente ficar sozinhos, só pensámos em dormir. Esquecemos o plano, as bolinhas do amor, o sexo e a lingerie. Não houve hipótese... Dormir foi mesmo a palavra de ordem.

Dias 5 e 6: Namorar e surpeender

No dia seguinte, antes dele ir trabalhar, já com o sono recuperado, sugeri sairmos só os dois, nessa noite. Combinei com a minha mãe ficar com a Madalena e fui buscá-lo ao trabalho. Calcei os meus botins pretos de salto alto, vesti a minha minissaia de lantejoulas e apareci pontualmente ao pé dele. Jantámos num dos nossos restaurantes preferidos e fomos dançar. Há muito tempo que não dançávamos e soube tão bem.

Apesar do cansaço nos ter obrigado a ir para casa mais cedo do que pensávamos, regressamos com outro ânimo, há que admiti-lo. Nesta fase, o cansaço impera, é um facto. E continua a trair-nos, apesar de começarem a surgir sinais de mudança na nossa relação. Voltámos a dizer "Amo-te" e a ser mais cúmplices, nem que seja pelo facto de querermos passar mais momentos juntos, ainda que, por algum motivo não consigamos.

Apesar do cansaço ou dos choros da Madalena, lidamos melhor com o facto de termos menos sexo. Mais do que fazermos amor como fazíamos antes, senti que o diálogo nos aproximou. Pelo menos, para já, acho que nos aproximámos por termos assumido a existência de um problema e, posteriormente, por o termos reconhecido. Mesmo assim, o plano dos sete dias continuou. Com alguns altos e baixos, é verdade, devido à rotina.

O cansaço, afinal, não desaparece em sete dias. Na véspera de terminar o programa, escrevi, de manhã, num post-it "Vamos fazer o que ainda não foi feito?" e colei-o no espelho da casa de banho. Se me apetecia? Não, mas achei importante fazê-lo! Nessa noite, não nos abraçámos. Estávamos de rastos. A noitada acabou por nos alterar a vida e, se por um lado, soube muito bem, por outro, complicou-nos os horários.

Dia 7: Entregar-se

Comecei a sentir falta da minha filha, alguns remorsos por, nesta semana, ter passado menos tempo com ela. Deixei-a mais vezes com a avó do que é habitual e insisti para que dormisse no seu quarto sozinha, mesmo quando chorava. Mesmo assim, quis terminar o programa da sexóloga sem falhas e, ao fim dos sete dias, entreguei-me, tal como sugere Vânia Beliz. Mudei, um bocadinho, os horários das refeições da Madalena.

Fi-lo de forma a que ela fizesse o sono maior à hora a que ele chega a casa. Correu bem! Enchi a banheira de espuma e esperei-o. Uma boa estratégia para ressuscitar algum desejo adormecido, pois percebi que consigo relaxar antes do sexo e recarregar baterias para entregar-me de corpo e alma. A nossa filha colaborou e, desta vez, dormiu de seguida. Concluí que, quando não se tem a mesma disponibilidade para o sexo, com dedicação e empenho, a vontade surge naturalmente. E dialogar é, sem dúvida, um grande truque para recuperar o desejo, pois logo após cumprir o ponto um, o problema pareceu menor.

Ao fim de uma semana, o balanço da experiência não poderia ser mais positivo. Há que reconhecê-lo! Unimo-nos e lidámos melhor com a questão, mesmo sem ter sexo. Só o desejo bastou para nos relacionarmos melhor. Afinal, queremos muito estar um com o outro, o que é bem diferente de acharmos que o outro não nos deseja. Lida-se, assim, melhor um com o outro e com os obstáculos com que nos deparamos no dia a dia.

A sexóloga Vânia Beliz concorda que o ponto de partida para recuperar o desejo é mesmo o diálogo. "Muitas vezes, não nos apercebemos o que falta ao outro", alerta. "Por isso, é muito importante sair sem filhos, só os dois", aconselha a especialista. Esses momentos, essenciais para o casal, devem ser usados para conversar e perguntar "Onde está o nós na nossa relação?", recomenda. Simples mas eficaz, eu garanto!

Texto: Alexandra Oliveira com Vânia Beliz (sexóloga)

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