Ainda há poucos anos, contavam-se quase pelos dedos os portugueses que conheciam esta cidade francesa contavam-se quase pelos dedos mas, desde que em 2013 recebeu o título de «Capital Verde da Europa», Nantes começou a atrair (mais) atenções. A aposta na renovação do património, no turismo, na modernização e na diversificação da oferta cultural, muito dinamizada pela organização Le Voyage à Nantes (LVAN), que também começou a dar frutos entretanto, fez o resto.

Obras de arte originais espalhadas por praças e ruas, antigas fábricas convertidas em pólos culturais, montras enfeitadas com figuras insólitas, instalações artísticas que surgem de um dia para o outro num lugar totalmente inesperado… É isto e muito mais que encontra quem escolhe Nantes como destino para uma escapada citadina ou para umas férias urbanas com muita cultura e com muito verde à mistura.

Da materialização do imaginário de Jules Verne, filho da terra e autor do livro «Vinte mil léguas submarinas», imortalizado num reputado museu com o seu nome, à imaginação (quase) sem limites de François Delarozière e das suas fabulosas máquinas articuladas, sem esquecer o vasto património histórico, há muito para ver e para fazer. Veja a galeria de imagens com as principais atrações turísticas de Nantes.

Visionária e criativa, é uma cidade para ver sem mapas. Ideal para percorrer a pé, a capital histórica da Bretanha tem tido o dom de se reinventar permanentemente, o que torna cada deslocação sempre diferente. Na companhia de uma família portuguesa que teve a oportunidade de visitar a sexta maior urbe de França acompanhada por uma guia local, partimos à aventura, cumprindo um plano que permite ficar a conhecer Nantes em apenas 48 horas.

O roteiro que permite ficar conhecer a cidade em apenas dois dias

O ponto de partida para este périplo pela cidade vibrante foi o apartamento que recria o universo de Jules Verne, no Quai de la Fosse, uma das principais ruas da cidade. É daqui que partimos em direção ao Memorial da Abolição da Escravatura, um monumento polémico que recria o convés de um barco e onde se pode ver que, a par de Nantes, Lisboa foi um dos principais portos de escoamento de escravos.

No chão, à medida que nos aproximamos, são muitas as placas que imortalizam os nomes dos navios que transportaram milhares de homens indefesos. Depois, seguimos para o centro nevrálgico da cidade, percorrendo o Cours Cambronne, uma alameda rodeada de edifícios neo-clássicos que nos leva diretamente até La Cigale, a brasserie mais famosa da região, que também integra um café e um salão de chá.

Com mais de um século, apresenta uma decoração que a torna num ponto de passagem obrigatório nem que seja para uma visita rápida. Em frente está o Théâtre Graslin, um imponente teatro, numa zona pedonal que, ainda há poucos anos, era uma das mais movimentadas e congestionadas de Nantes. Não muito longe dali está uma das atrações turísticas mais procuradas por quem visita a cidade.

A Passage Pommeraye, uma passagem coberta que liga a zona alta à zona mais baixa da urbe. Inaugurada em 1843, pelo rei Louis-Philippe, ocupa uma área desnivelada de 9,40 metros, que chegou a ter mais de 60 lojas. Em meados da década de 2010, sofreu obras de recuperação e modernização, mas o património arquitetónico e o charme sedutor desta original galeria comercial foi preservado.

Nantes

Atrações turísticas que misturam passado e presente que já é futuro

A Place Royale, ali mesmo ao lado, é o destino seguinte. Desenvolvida esteticamente pelo arquiteto Mathurin Crucy, ostenta uma fonte monumental. Chegamos lá depois de descer a Rue Crébillon, repleta de lojas modernas e cosmopolitas. É lá que os nantais, os habitantes da cidade, gostam de ir ver as montras e fazer compras, aquilo a que muitos chamam crébilloner, o passatempo favorito de muitos dos locais.

Até junho de 2012, a escura Tour Bretagne, o edifício mais alto da cidade, era pouco do agrado dos moradores da cidade. Mas desde que o artista gráfico Jules Julien, que já trabalhou para a Nike e para jornais como o The Guardian e o The New York Times, a converteu num bar trendy e original, a situação mudou. Le Nid, já visitado mais mais de 1,5 milhões de pessoas, tem um miradouro de onde se avista toda a metróle.

No entanto, é o seu bar em forma de cegonha e as mesas e cadeiras em forma de ovos que deixa qualquer um de boca aberta. De lá, seguimos em direção à Catedral de São Pedro e São Paulo, popularmente conhecida como Catedral de Nantes. Um importante monumento de arquitetura gótica que, em julho e agosto, os meses de maior dinamismo da iniciativa cultural «Le Voyage à Nantes», vê muitas vezes a sua fachada receber projeções de figuras repletas de cor e movimento.

Além dos vitrais e dos órgãos, o destaque vai para o imponente túmulo do duque François II e da duquesa Marguerite de Foix, encomendado por Ana de Bretanha a Michel Colombe em 1506, que pode ser observado de cima a partir de um original varandim. Uma estrutura metálica, instalada a pedido dos promotores do evento, que permite visualizar o monumento de cima, com uma nova perspetiva.

Uma descoberta inesperada e surpreendente

O Castelo dos Duques de Bretanha, para onde nos dirigimos a seguir, também atrai atenções. O exterior fortificado, inspirado nos da Idade Média, contrasta com o edifício que dá para o pátio, de traços apalaçados. No dia em que lá fomos, em vez de um pomar em vasos, com árvores de fruta que os visitantes podem apanhar e comer ou levar para casa, havia um festival de street art, com demonstrações de graffiti e roulotes de street food.

Nantes é permanentemente assim. Sedutora, inesperada e surpreendente! Adjetivos que também se aplicam ao Jardin des Plantes, o quarto jardim mais importante do país, com mais de 11.000 espécies vegetais e 60 variedades de pássaros. É neste espaço, que visitamos de seguida, que também se podem observar criações artísticas elaborada com plantas, flores e arbustos, um banco de jardim gigante e muitas outras surpresas. Além deste, há mais 100 espaços ajardinados em toda a cidade.

Para terminar um (primeiro) dia entusiasmante e extenuante, a guia escolheu Le Lien Unique, outro dos orgulhos dos habitantes de Nantes. Esta antiga fábrica de bolachas de manteiga da marca LU, muito populares em França, foi convertida em centro cultural. Hoje, integra um restaurante, um bar, uma sala de espetáculos, um espaço para exposições, uma loja e até um spa com um hammam. À noite, há muitas vezes concertos e atuações de DJ.

Uma cidade a descobrir o quanto (N)antes

As (muitas) surpresas reservadas para o segundo dia

Tomás e Daniela, os mais novos da família Ceia, acordam (muito) entusiasmados com a possibilidade de ver (finalmente) o elefante mecanizado que é hoje um dos símbolos maiores de Nantes mas, primeiro, vamos ao Mercado de Talensac, agitado e movimentado desde as primeiras horas da manhã. O local perfeito para degustar alguns dos queijos mais reputados da região, como o Beillevaire, acompanhado por um copo de Muscadet, o famoso vinho regional.

Terminamos a refeição improvisada com um gâteau nantais, um delicioso biscoito à base de amêndoas e rum. De lá seguimos para a (agora) famosa Île de Nantes. Nos últimos anos, os terrenos abandonados que rodeavam os antigos estaleiros navais da cidade, entretanto desmantelados, foram convertidos num laboratório de experiências para arquitetos e designers, que aí mandaram construir edifícios de linhas modernas e futuristas.

As novas criações que foram surgindo foram, a pouco e pouco, transformando toda aquela zona num verdadeiro museu a céu aberto, onde não faltam galinheiros e até autocarros suspensos. L’Absence Bar, um estabelecimento em forma de nuvem junto à moderna Escola de Arquitetura de Nantes, é, a par do restaurante em forma de tenda de índio, uma das construções mais surpreendentes, tal como a árvore metálica com cestos de basquetebol no lugar dos ramos.

Está localizada junto ao Carrossel dos Mundos Marinhos, uma imponente diversão com 25 metros de altura e 22 metros de diâmetro, repleto de monstros (sub)aquáticos como os que povoam os livros de Jules Verne. Um carrossel de três andares à moda antiga, onde, a cada volta, criaturas marinhas, algumas delas com um aspeto feroz e assustador, ganham vida, para gáudio de pequenos e menos pequenos.

O poder de atração do (famoso) elefante

Depois de almoçarmos frango do campo com batatas assadas e legumes cultivados na horta biológica construída ao lado da cantina comunitária La Cantine du Voyage à Nantes, o único prato disponível quando o espaço está aberto, seguimos para o complexo Les Machines de l’Île, que alberga um hangar com espaços que, por vezes, acolhem exposições e concertos, além da fábrica onde são criadas as figuras mecânicas. Seres surpreendentes idealizados por François Delarozière e Pierre Orefice, que encantam anualmente milhares de visitantes.

As garças voadoras, a aranha gigante e a lagarta de madeira fazem as delícias de miúdos e graúdos mas é o famoso elefante com 12 metros de altura, que pesa 48,4 toneladas, com capacidade para 50 pessoas, que (quase) todos querem ver e fotografar. O passeio demora cerca de 30 minutos. A tarde termina com um passeio até ao Hangar à Bananes, um armazém de bananas que foi reconvertido e hoje abriga bares, restaurantes, salas de exposição e até uma discoteca.

Se não puder ou não quiser ficar por lá até ao cair da noite, pode sempre voltar depois de anoitecer para admirar Les Anneaux, os anéis circulares que o artista plástico Daniel Buren idealizou para o Quai des Antilles e que acendem ao fim do dia, dando (ainda) mais cor à cidade. A animada zona da Place du Commerce, que ostenta uma estátua do Infante D. Henrique, é outro dos locais que pode escolher para se despedir de Nantes. Foi o que fizemos…

Uma cidade a descobrir o quanto (N)antes

Texto: Luis Batista Gonçalves com Franck Tomps/LVAN, Jean-Dominique Billaud/LVAN e Martin Argyroglo/LVAN (fotografias)

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