O leite materno oferece benefícios únicos para a saúde do bebé. No entanto, nem sempre é possível amamentar, quer seja por inadaptação do bebé quer seja por impossibilidade da própria mãe, assim como há casos de mulheres que optam livremente por não o fazer. Mastite (inflamação das glândula mamária) ou mamilos planos ou invertidos são as situações que mais frequentemente impedem a mãe de amamentar.

"A prioridade deve ser alimentar o bebé para que ele possa crescer saudável", sublinhou a enfermeira Sandra Lucas, no decurso de uma conferência promovida no âmbito de um projeto formativo. Nos casos em que a amamentação não é possível, os leites artificiais são a alternativa mais saudável. "Apesar de não substituírem o leite produzido pela mãe, estão cada vez mais semelhantes ao leite materno", assegura.

A composição dos leites artificiais

Quais as diferenças entre o leite materno e o artificial? "O leite materno serve como padrão de referência para a elaboração das fórmulas de leite infantis. No entanto, a composição do leite produzido pela mãe é dinâmica, variando de mulher para mulher, ao longo de cada mamada e ao longo do crescimento e desenvolvimento da criança, o que o torna um alimento com características muito particulares", sublinha Sandra Lucas.

"Muitas delas difíceis de introduzir nas fórmulas artificiais", acrescenta ainda a enfermeira. Contudo, "a maioria das fórmulas infantis inclui já elementos que se assemelham aos do leite materno, como os ácidos gordos polinsaturados de cadeia longa (LCPUFA), essenciais ao neurodesenvolvimento, os nucleótidos, essenciais na resposta imunitária", refere ainda a especialista. A lista inclui ainda "pré e próbióticos", refere.

Substâncias "que desempenham uma função importante na constituição da flora intestinal e das defesas do recém-nascido", esclarece ainda. Estas fórmulas infantis, elucida Sandra Lucas, "são desenvolvidas a partir do leite de outros mamíferos [leite de vaca e outros animais] e outras fontes/ingredientes e comprovadamente adequados para a alimentação da criança nos primeiros meses de vida", diz ainda.

A opção por esses elementos nutricionais garante "o seu normal crescimento e desenvolvimento", assegura. "Todas as fórmulas respeitam, no que concerne aos macro e micro nutrientes, os valores definidos pela Comunidade Europeia para os diferentes grupos de leites", afirma Sandra Lucas. Assim, na sua composição destacam-se as proteínas e os lípidos, provenientes de óleos vegetais e/ou animais.

Estes elementos "oferecem maiores quantidades de ácidos gordos essenciais", refere ainda a enfermeira. A par desses, estes leites artificiais integram ainda hidratos de carbono, "sendo a lactose a base standard das fórmulas", como realça a especialista. Muitas das formulações disponíveis no mercado são, ainda, enriquecidas com vitaminas e sais minerais, à semelhança de outros produtos infantis.

Como escolher o leite para o seu bebé

Como nem todos são iguais, importa fazer uma escolha informada. "A opção da fórmula do leite deve ser feita sob a supervisão do médico assistente, principalmente quando se tratam de fórmulas com características especiais", frisa a enfermeira. As diversas fórmulas disponíveis no mercado podem ser agrupadas em três grupos principais, de acordo com a fase de crescimento do bebé.

Semelhante ao leite materno, o leito adaptado é indicado para a fase de iniciação, do nascimento até aos quatro a seis meses. O leite de transição, por sua vez, é indicado a partir dos quatro a seis meses até aos 12 meses. Já o leite de continuação ou  de crescimento é, sobretudo, adequado a crianças entre um e os três anos. Dentro dos três grupos acima referidos, existem ainda outras variações, das quais destacamos quatro:

1. Fórmulas hipo-alergénicas

"Estes leites são constituídos à base de proteínas de soro de leite hidrolizado, em que as substâncias alergénicas (proteínas) do leite de vaca são eliminadas. A sua utilização é indicada em crianças com sintomas de alergia ou que apresentem maior risco de desenvolvimento de sintomas de alergia/intolerância, nomeadamente crianças com antecedentes familiares de doenças alérgicas", indica a enfermeira Sandra Lucas.

"As grandes desvantagens destes leites são o mau sabor e o baixo poder saciante", refere ainda a especialista. As fórmulas hipo-alergénicas subdividem-se em dois tipos:

- Leites parcialmente hidrolisados

As proteínas do leite de vaca são parcialmente eliminadas, sendo esta fórmula adequada para situações de prevenção de possível alergia.

- Leites extensamente hidrolisados

Nesta fórmula, as proteínas de leite de vaca são totalmente eliminadas, estando por isso indicada para situações de diagnóstico de alergia às proteínas do leite de vaca.

2. Fórmulas anti-cólicas

De acordo com Sandra Lucas, "este tipo de leite possui um baixo teor de lactose, assegura uma maior absorção no intestino e reduz o risco de flatulência [gases] e cólicas". "É indicado particularmente em bebés com intolerância parcial de lactose, motivada essencialmente pela imaturidade intestinal", refere ainda a especialista.

3. Fórmulas anti-regurgitação

Diminuem os episódios de refluxo pois oferecem ingredientes (amido de milho, arroz, batata e/ou farinha de alfarroba) que permitem o espessamento do leite, o que resulta num conteúdo gástrico mais homogéneo e viscoso.

Estas fórmulas, sublinha a especialista, "não devem ser usadas em crianças saudáveis que apresentem refluxo, mas sim recomendadas a crianças com má evolução ponderal devido a excessiva perda de nutrientes associada à regurgitação, pelo que deve ser utilizada após aconselhamento com o médico assistente da criança", diz.

4. Fórmulas sem lactose

"A lactose é um dissacárido constituído por glicose e galactose que necessita de ser degradado através de enzimas [lactase] para ser absorvido pelo organismo", explica a enfermeira. "Os leites sem lactose têm como principais indicações deficits em lactase, seja de forma permanente ou temporária, como em situações após gastroenterites e diarreias agudas", esclarece Sandra Lucas.

A transição do leite materno para os leites artificiais

Relativamente à melhor forma de transitar do leite materno para os leites artificiais, Sandra Lucas refere que "não existe uma receita e que depende de cada caso". Na hipótese de intercalar a toma do leite materno com a fórmula artificial, o importante "é iniciar sempre a mamada oferecendo leite materno, seja diretamente na mama ou por biberão e, só no caso de o bebé não ficar saciado é que a mãe deve recorrer ao leite artificial".

Quanto à quantidade ideal de leite, a enfermeira lembra que, "no que diz respeito ao aleitamento materno essa questão não se levanta, uma vez que o recomendado é o aleitamento em horário livre, sempre que o bebé o desejar". No que respeita ao leite artificial, "a quantidade de leite a oferecer encontra-se diretamente relacionada com a idade e peso da criança", adverte ainda a especialista.

Essa definição "deve ser feita sob supervisão de um profissional de saúde ou de médico assistente", recomenda a enfermeira especialista em saúde infantil e pediátrica, sublinhando que não existe aqui um padrão rígido, uma vez que existem condicionantes. "A frequência neste caso é diferente e varia de criança para criança, devendo-se respeitar um intervalo de forma a garantir uma correcta digestão do leite", realça ainda.

Texto: Sofia Santos Cardoso com Sandra Lucas (enfermeira especialista em saúde infantil e pediátrica)