“Amamentação: um presente da mãe para cada criança” (tradução livre) é o nome do estudo publicado pela UNICEF no passado mês de Maio, analisando 123 países com base em dados fornecidos pelos governos locais, com o intuito de disponibilizar informação que ajude a potenciar as taxas de aleitamento materno no maior número de países.
De acordo com o documento, Moçambique tem uma taxa de amamentação de 97.3, uma das mais altas entre os países lusófonos estudados – Angola (94,9%), Guiné-Bissau (98%) e São Tomé e Príncipe (97%) –, mas mais baixa que os vizinhos Zimbabwe (98,1%) e Tanzânia (98,3%) ou Malawi (97,7%).
A contribuir para estes valores em Moçambique estará o fraco desempenho no que toca à amamentação precoce – iniciada na primeira hora de vida - onde se regista uma taxa de 69%, segundo um estudo de 2017.
Mais preocupante é a taxa de amamentação exclusiva entre os 0 e os 5 meses de vida, que se encontra nos 41%, uma vez que as indicações da Organização Mundial de Saúde (OMS) são de que se faça um regime de aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses.
Com valores considerados positivos temos apenas a taxa de amamentação continuada até 1 ano de idade, com 86%. Se estendermos o período até 2 anos, a taxa baixa para os 51,5%.
Países ricos vs países pobres
A taxa de amamentação revela-se bastante variável entre países com baixos-médios rendimentos, onde 4% dos bebés não recebem leite materno, e os países com altos rendimentos, onde essa percentagem sobe para os 21%.
Algumas das conclusões do estudo chegam a ser algo inesperadas. Por exemplo, em alguns países ricos e desenvolvidos, onde a informação sobre os benefícios da amamentação não só para a criança, mas para a própria mãe deveria estar amplamente disseminada e enraizada, a taxa está claramente abaixo do esperado. Exemplo disso são os EUA e a Irlanda, com taxas de amamentação de 74% e 55%, respectivamente.
Por outro lado, é interessante verificar que nos países ricos as taxas de amamentação são mais baixas nos grupos mais pobres, possivelmente mães obrigadas a regressar ao trabalho precocemente ou mais pressionadas por factores sociais e financeiros, enquanto nos países pobres são as mães com rendimentos mais altos que apresentam menores taxas de amamentação.
Segundo os dados, a África Central e Ocidental registam maior divergência entre as percentagens de crianças que continuaram a ser amamentadas até aos 2 anos com cenários bem diferentes em famílias ricas e pobre. Nas famílias com menores rendimentos essa percentagem é de 63%, contra 26% nas famílias mais abastadas. A menor variação regista-se na Europa de Leste e Ásia Central, onde 31% das crianças de 2 anos em famílias pobres ainda amamentam, e nas famílias ricas são 23,2%.
A licença de maternidade remunerada, a redução de horário laboral para amamentação ou o acesso a suplementos que substituem o leite materno, são determinantes na realidade de cada país.
Apesar de tudo, da globalização e das novas tecnologias, a falta de informação ainda é um factor preponderante. Muitas mães não conhecem realmente a importância de amamentar o bebé na primeira hora de vida e muitas unidades de saúde não promovem essa prática.
O estigma de amamentar em público também ainda está presente em muitas sociedades, que retrai muitas mães, principalmente, as que não têm apoio dos companheiros para encarar esse acto como algo natural e positivo.
O estudo chama também a atenção para o facto das divergências entre taxas de aleitamento entre grupos de diferentes rendimentos serem um sinal de falta de informação às grávidas e parturientes, algo que requer intervenção urgente.
Benefícios da amamentação
O primeiro e grande benefício da amamentação precoce é a protecção contra infecções gastrointestinais, frequente em países em desenvolvimento, mas não só. Esta prática protege o recém-nascido de diarreias e outras infecções que podem ter consequências graves naquela fase da vida, reduzindo assim a mortalidade neonatal.
Em crianças de 6 a 23 meses, a amamentação constitui-se também como uma importante fonte de energia, suprindo um terço das necessidades de energia a partir do 12º mês.
Está provado que crianças que tiveram acesso ao leite materno são menos propensas a excesso de peso ou obesidade e têm melhor desempenho escolar e QI, algo influencia positivamente a vida adulta.
Os benefícios para a mãe também são evidentes. Os períodos de amamentação são uma fonte de bem-estar natural, ajudam a reforçar o laços mãe-filho e contribuem para a redução do risco de cancro da mama e ovário.
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