Quando as pessoas se casam, fazem-no, na maioria das vezes, com o sonho de criar uma família e um projeto de vida a dois, que se espera que seja “para sempre” pelas convenções sociais. No entanto, as relações interpessoais são multifacetadas e dinâmicas, o que nem sempre significa que os sonhos e as expectativas de um projeto de vida iniciado a dois sejam verdadeiramente concretizados ou que não tenham prazo de validade.

Nas relações de longo-prazo costumam existir períodos de maior tensão e afastamento emocional, que são verdadeiros desafios e que nem sempre são ultrapassados. A determinada altura, o fantasma “divórcio” acaba por vir ao de cima e ser, em muitos casos, inevitável.

Por ser um fenómeno multicausal, o divórcio não tem apenas uma causa, mas sim um conjunto delas que agem como efeito dominó, apartando o casal.

Estas são as principais causas do divórcio segundo a literatura

  • Cada elemento do casal ter objetivos e formas de estar diferentes;
  • Inexistência de confiança no/a parceiro/a;
  • Falta de intimidade e afetos;
  • Falta de comunicação e ausência de planos a dois;
  • Assumir que o casamento é algo garantido, levando a um desinvestimento em relação ao outro; infidelidade;
  • Dificuldades financeiras;
  • Violência e maus-tratos;
  • Interferência externa (familiares, amigos, colegas de trabalho).

Os casais que estão em fase de divórcio ou a preparar-se para ele podem ter duas posturas com resultados bastante diferentes: uma postura pacífica, saudável e respeitosa ou uma postura conflituosa e de vingança.

Nestes últimos casos, se não houver intervenção, as crianças serão instrumentalizadas e acabarão por desenvolver sentimentos de culpa, revolta, ou profunda tristeza, ou até mesmo serem manipuladas e tomarem partido de um dos progenitores, alimentando sentimentos negativos em relação ao outro, chegando a casos extremos como os que tendem a ser chamados de alienação parental ou o assumir de uma postura cuidadora em relação aos progenitores, como se existisse uma inversão de papéis.

Neste sentido, os pais, enquanto adultos, devem ajudar os seus filhos a ver as boas qualidades de cada um dos progenitores e trabalharem para o desenvolvimento de relacionamentos positivos entre si.

Um sistema de apoio eficaz é fundamental para fornecer aos pais as competências necessárias para lidar com os desafios da coparentalidade, em que os princípios centrais desse sistema devem passar por reduzir conflitos, garantir segurança física e fornecer serviços de suporte adequados para reduzir danos às crianças. Para que esse sistema seja bem-sucedido, os profissionais precisam criar um modelo ajustado a cada caso que ajude a resolver disputas familiares e se concentre no bem-estar das crianças.

Dicas para os pais

O divórcio pode ter um enorme impacto na estrutura familiar da criança e nas suas rotinas, podendo gerar alguma instabilidade e sentimentos negativos aos quais deve estar atento(a), prevenir e atuar sobre eles. O seu papel, como pai ou mãe, é o de proteger os seus filhos e estar bem consigo próprio(a) para que possa responder às necessidades das crianças de forma saudável e eficaz. Nesse sentido:

  • Saiba que o seu papel de pai/mãe é acima de tudo garantir que as suas crianças tenham as necessidades básicas colmatadas (incluindo as afetivas!).
  • Não use os seus filhos para se vingar do(a) seu(sua) ex-cônjuge, ou para comunicar com ele(a). Em alternativa, opte por procurar acompanhamento especializado para gerir o turbilhão de sentimentos que o(a) invadem sem que a criança seja uma arma de arremesso.
  • Não impeça o(a) seu(sua) ex-cônjuge de ver as crianças como forma de o(a) punir. Os filhos não têm culpa da situação e não devem ser impedidos de ver o pai ou a mãe.
  • Mantenha as rotinas dos seus filhos o mais possível, para que eles não sintam as alterações de uma forma abrupta, mas se sintam seguros em relação aos afetos de cada um dos progenitores.

Não se esqueça dos direitos das crianças no pós-divórcio

  • As crianças têm o direito de serem amados incondicionalmente pelo pai e pela mãe.
  • Devem estar protegidas das disputas dos pais.
  • Devem-se sentir seguras e emocionalmente estáveis.
  • Devem privar tanto com o pai como a mãe, mantendo relações significativas com ambos.
  • Devem poder expressar os seus sentimentos de forma livre, serem ouvidos e clarificados dentro dos limites éticos e de desenvolvimento da criança (não lhes minta, mas não conte mais do que é necessário).

Para conhecer outros direitos das crianças com pais separados, consulte esta ligação no Facebook da MIND - Psicologia Clínica e Forense.

O que pode fazer para que as relações entre pais e filhos continuem a ser saudáveis?

  • Incentive o contacto entre as crianças e o pai ou a mãe.
  • Evite falar mal do ex-cônjuge, sobretudo quando estiver com a criança.
  • Enalteça os pontos positivos do(a) seu(sua) ex-cônjuge, diferenciando o papel de pai/mãe, do papel de marido/esposa. Com certeza terá qualidades enquanto pai/mãe que devem ser reconhecidas e valorizadas (afinal tiveram filho(s) em conjunto!), ou até mesmo como pessoa, pois afinal de conta apaixonou-se por essa pessoa, num determinado período da sua vida, pelo que alguma virtude terá.
  • Dê abertura às crianças para se manifestarem emocionalmente, para conversarem e para esclarecerem as dúvidas delas.
  • Não pergunte aos seus filhos informações sobre a nova vida do pai ou da mãe.
  • Faça, dentro dos possíveis, com que o dia da criança seja o mais parecido com o que era antes do divórcio.
  • Esteja bem na sua pele! Se o divórcio ocorreu, embora possa ter sido de surpresa, terá sido a melhor opção. Para que uma relação funcione, os dois elementos têm que trabalhar nessa relação. Tem agora uma nova oportunidade de ser feliz.
  • Faça o seu luto da relação e calmamente adapte-se às novas rotinas. Se estiver bem, os seus filhos também estarão bem.

Nem sempre é fácil manter a estabilidade emocional em processos desta natureza, pelo que a procura de ajuda, seja em contexto forense, seja em contexto clínico, se torna fundamental para que possa desenvolver um plano de coparentalidade baseado no respeito e, sobretudo, no bem-estar dos seus filhos. A psicologia tem ao seu dispor um vasto conjunto de técnicas e planos que são úteis para estas situações, em que o aconselhamento parental pode fazer a diferença entre um divórcio pacífico e com maturidade e um divórcio conflituoso em que o objetivo passa por projetar as frustrações e sentimentos negativos em cima do outro.

Partilhar vida com alguém que não quer estar na relação é como navegar num barco que está danificado. Mais cedo ou mais tarde, irá afundar-se. Pense nos seus filhos antes de os afundar consigo. Proteja-os e coloque-nos onde eles devem estar: no topo da sua lista de prioridades. Lembre-se que se divorciou do ex-cônjuge, mas os seus filhos não se divorciaram de nenhum dos pais!

Salvaguarde-se que este texto é unicamente referente e aplicável a situações em que nenhum dos progenitores tenha sido maltratante para com a criança. Assim, excluem-se, por exemplo, as situações de violência doméstica, negligência ou de abuso sexual.

Um artigo da psicóloga clínica Laura Alho, da MIND - Psicologia Clínica e Forense.

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