Não foi e não é um caminho fácil. Muitas vezes, após um processo avaliativo, as famílias descrevem que os apoios disponíveis na sua região são escassos. A isto junta-se o facto de os técnicos de referência e as famílias estarem separados por algumas centenas de quilómetros.

A atual disseminação das tecnologias tornou possível que a intervenção terapêutica se estendesse para além das paredes do gabinete. Encetar um processo terapêutico online irá facilitar o acesso e a flexibilidade da intervenção. Não há dúvida que o potencial existe, ao permitir que o apoio esteja acessível e de modo mais eficiente. Ao eliminar as barreiras do tempo e do espaço estamos inevitavelmente a reduzir custos. “Tempo é dinheiro” e a deslocação, com todas as alterações que acarreta (combustível, portagens, desgaste do veículo e, claro, tempo também), mais dinheiro é.

Apesar destas vantagens indiscutíveis, as famílias questionam-se quanto à validade de uma intervenção à distância: “Será que vale a pena? A relação que se estabelece é igual? O nível de concentração da criança ou jovem será o mesmo?”

O desconhecimento que se alia ao medo pode constituir um entrave ao processo terapêutico. As questões que surgem numa fase inicial são válidas e essenciais para que se questione a sua validade, mas também para a recetividade e disponibilidade para a mudança.

A intervenção terapêutica online fornece aos intervenientes um espaço muito semelhante ao contexto presencial permitindo a possibilidade de integrar a comunicação não-verbal.

A aliança terapêutica é um fator crucial para o sucesso da intervenção. É legítimo questionar se o ecrã funciona como facilitador ou dificultador da relação. Algumas investigações evidenciam maiores níveis de iniciativa, confiança, espontaneidade e desinibição em intervenções não presenciais. O facto de o paciente estar menos exposto na interação pode, efetivamente, permitir-lhe um maior controlo sobre a situação e o mesmo poderá ser potenciador de uma maior disponibilidade para a relação e para a mudança.

Considerando as dificuldades escolares e, mais concretamente, crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem específicas na leitura, na escrita e no cálculo é possível e previsível, numa fase inicial, antecipar os comportamentos de recusa e de oposição relativamente às tarefas académicas e ao material típico de intervenção.

Uma caneta, um lápis e uma folha podem ser interpretados e concetualizados pela criança ou jovem como o “bicho-papão”. Quando o ecrã de computador e os periféricos que possibilitam a interação, como o teclado e o rato, atestam a familiaridade da criança ou jovem, fornecem igualmente, um sentimento de autoeficácia que acrescenta motivação ao processo terapêutico.

A intervenção à distância não só diminui o afastamento geográfico, como também utiliza um meio que é, por si só, fascinante. Para os mais novos é uma fonte de interesse e de motivação. A novidade, o brilho do ecrã, o boneco que “ganha vida”, as letras que saltitam, funcionam como facilitadores da partilha e motivadores para a aprendizagem.

As tecnologias fazem parte, de forma direta ou indireta, do quotidiano de todos. Prevemos que o aumento progressivo da utilização dos dispositivos tecnológicos e, no mesmo sentido, a familiarização dos utilizadores (e dos técnicos) com estes aparelhos, venha a confirmar a tecnologia como um instrumento essencial para a intervenção terapêutica do futuro.

Texto: Carla de Menezes Cohen e Andreia Cunha (PIN)

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