À medida que a criança cresce, o relacionamento com a mãe evolui para algo mais independente. Mas, nalguns casos, as coisas não são tão simples assim e ambos ficam reféns dos velhos papéis da infância.

“A maioria das crianças começa por ser muito dependente da mãe, e não é fácil para nenhum dos dois abandonar esse padrão”, explica Tina B. Tessina, psicoterapeuta e autora de It Ends With You: Grow Up and Out of Disfunction, em declarações ao Huffington Post. “No entanto, para garantir o equilíbrio emocional de ambos, a mãe deve ajudar o filho ou a filha a ganhar autonomia e esta ou este tem de começar a traçar o seu próprio caminho”, continua a especialista.

O Huffington Post pediu a Tessina e a outros terapeutas que enumerassem alguns comportamentos reveladores de que esta relação não está a progredir de forma saudável. São situações em que o jovem adulto não consegue estabelecer limites à ingerência da mãe na sua vida.

A mãe que exige demais

Um filho que sinta necessidade de abandonar o que está a fazer, a qualquer momento, para atender a mãe, mesmo que já tenha falado com ela naquele dia, não está a agir de forma saudável. Se cancela planos com amigos, colegas ou namorada/o porque a mãe quer vê-lo, algo de estranha se passa. “Ligar demais ou esperar que o filho ou filha gaste uma enorme quantidade de tempo livre consigo não é uma boa política”, defende a psicóloga clínica Gina Delucca. “O jovem até pode ceder devido a sentimentos de culpa ou de obrigação, mas a relação começa a ficar demasiado pesada”. Ceder a este tipo de exigências pode prejudicar o vínculo entre ambos. “Se a atenção do jovem se centrar na mãe, isso impede que ambos evoluam como pessoas”, defende a terapeuta Amanda Stemen, finalizando: “Tal hábito pode provocar ressentimento e outros sentimentos negativos”.

O filho que se sente responsável pelo bem-estar emocional da mãe

Se a mãe diz ou faz coisas que indicam que o filho ou filha é responsável pelo seu bem-estar emocional, isso provavelmente significa que os limites foram mal traçados. Ninguém pode controlar o estado das emoções alheias; só o próprio. “Algumas mães habituaram-se a responsabilizar os filhos pelas suas emoções”, diz Amanda Stemen. “Essas mães podem dizer coisas como: ‘Deixas-me tão triste quando não telefonas’ ou 'Se não tivesses feito isso, eu não me tinha enervado’”. Este tipo de ‘chantagem’ “muitas vezes começa ainda em criança e, a manter-se, faz com que, já crescido, o jovem se sinta obrigado a fazer os pais felizes primeiro”. A mesma especialista alerta que “esta forma tóxica de pensar pode alastrar-se a outros relacionamentos. “O jovem pode ter dificuldade em gerir outras relações, acabando por criar ligações de dependência como forma de imitar a que tem com a mãe”.

O filho que mente para não desapontar a mãe

“É natural que um jovem tenha mentido alguma vez à mãe sobre o que fazia nos intervalos das aulas, de forma a não a desapontar ou preocupar. Mas, já adulto, deve ter consciência de que é responsável pelas suas decisões e tem de assumir as consequências das mesmas, sublinha Aaron Anderson, terapeuta familiar. “Um filho não precisa que a mãe expresse o seu desagrado para saber o que é certo e errado”, defende Anderson. Se ele mente por esse motivo, “isso pode significar que ainda está preso às velhas regras da infância”. A honestidade é fundamental para a evolução desta relação.

A mãe que usa a dependência financeira

Num período de dificuldades financeiras, como numa situação de desemprego, o jovem adulto pode ter de pedir dinheiro à mãe (ou ao pai) para se sustentar. Não há nada de errado nisso. Mas, se ele é capaz de trabalhar, não há motivos para ser financiado. “Mães que sustentam os filhos tendem a cobrar todo o tipo de informações sobre as suas finanças, incluindo quanto gastam por mês e em quê”, explica Anderson, referindo que “isso significa que elas podem apoiar ou negar apoio a certas decisões através do dinheiro. O que impede, claramente, que o jovem se torne um adulto autónomo”. Atenção: “Não há problema em aceitar presentes e talvez até pedir ajuda numa emergência, mas, caso contrário, pedir dinheiro à mãe é um grande erro”. Os adultos física e mentalmente capazes devem lavar as suas roupas, limpar a sua casa, fazer as suas compras e ir ao médico sozinhos. Deixar que seja a mãe a tratar de tudo impede o crescimento e desenvolvimento natural do jovem adulto. “Embora possam parecer gestos de carinho, a verdade é que interferem na capacidade de o indivíduo viver de forma independente e aprender a cuidar de si”, defende Delucca.

A mãe que quer validar as decisões

Um jovem que não consiga tomar decisões sem pedir primeiro permissão à mãe tem de repensar a sua atitude. Como futuro adulto, ele deve sentir-se confortável com as suas escolhas e ser capaz de as levar adiante. Claro que pode pedir opinião à mãe, mas nunca deixar que seja ela a decidir. Até porque se a mãe não concordar, pode sempre recorrer à chantagem emocional, alimentando sentimentos de culpa no filho. “Se a mãe responder com raiva, crítica ou desilusão ao facto de o jovem fazer algo diferente do que ela quer”, explica a terapeuta familiar Tara Griffith, “isso pode fomentar no jovem uma incapacidade de ser assertivo, fragilizar a sua autoconfiança e gerar desconforto de cada vez que tem de exprimir os seus pontos de vista”.

A mãe que espia o filho

As relações saudáveis são construídas com base na confiança mútua. Se a mãe ou o filho se sentirem obrigados a bisbilhotar ou a violar a privacidade alheia, é porque algo está errado. “Se a mãe lê a correspondência pessoal do jovem, segue-o nas redes sociais e aparece de surpresa nos locais que ele frequenta; se exige tempo e atenção e fica magoada se o filho diz 'não', estamos perante uma clássica ausência de limites”, observa Tessina.

A mãe que compete com o filho

Numa relação saudável, o pai ou a mãe têm orgulho - não inveja - das qualidades, habilidades e feitos dos filhos, e vice-versa. Se existirem sentimentos de competitividade, deve-se tentar entender porquê. “Isto pode incluir sentir inveja ou competir pela aparência física e atenção de outros – incluindo a do pai – mas também pelo sucesso profissional”, sublinha a terapeuta familiar Lynsie Seely. “A certa altura, o jovem pode anular-se para deixar a mãe brilhar e desenvolver uma voz interna excessivamente crítica ou um sentimento de incompetência difícil de ultrapassar”, remata.

A mãe que encobre as asneiras do filho

Não é amor, é um disparate. As mães que tentam esconder e reparar os comportamentos menos bons dos filhos, de forma a protegê-lo das consequências, estão a contribuir para a formação de um mau carácter. “Essa atitude faz mais mal do que bem, dado que permite a continuação de maus hábitos e a ausência de consequências. Situações dessas podem estar associadas à culpa ou serem uma estratégia para manter a dependência dos filhos quando eles começam a tornar-se autónomos”, esclarece Griffith.

A mãe que esmiúça a vida íntima do filho

“Ter um relacionamento honesto pode ser maravilhoso, mas há certas coisas que é melhor não saber. Mesmo num relacionamento próximo, em que se fala abertamente sobre quase tudo, é normal e saudável manter temas secretos e limites”, reforça Gina Delucca.