A criação do conceito

Tina Brown, que exerceu as funções de editora da revista Vanity Fair entre 1984 e 1992, revelou que a ideia para a capa de agosto de 1991 partiu de uma conversa com a fotógrafa Annie Leibovitz. O objetivo era que a edição fosse protagonizada por uma celebridade grávida, cuja capa funcionasse como uma espécie de celebração do corpo feminino durante o período de gestação. A escolha recaiu sobre umas das maiores estrelas de cinema dos anos 1990: Demi Moore.

Aos 28 anos e grávida da sua segunda filha, Scout Willis, fruto do casamento com o também ator Bruce Willis, a atriz aceitou o convite da publicação de moda.

A escolha da capa

‘Demi’s Big Moment’ foi o título escolhido para a história de capa, centrada na sua carreira e vida pessoal, e sessão fotográfica captada por Annie Leibovitz. Inicialmente, tanto os editores da revista como a fotógrafa nunca tiveram como objetivo explorar a nudez ou fazer uma sessão fotográfica onde a atriz tivesse de se despir. Foi algo que aconteceu por mero acaso, como recordou Demi Moore durante o The Tonight Show starring Jimmy Fallon em setembro de 2019.

“Estávamos a fazer a sessão fotográfica para a Vanity Fair e essa [fotografia da capa] foi a última que fizemos para mim e para a minha família. E durante esse momento eu pensei ‘Meu Deus, seria incrível se tivessem a coragem de colocar isto na capa’. E eles [editores] voltaram atrás e disseram ‘Gostávamos de fazer isso. Estás confortável?‘”, disse em conversa sobre o tema.

A famosa imagem, que supostamente iria apenas fazer parte do álbum de gravidez privado da atriz, acabou por ir parar às mãos da editora da Vanity Fair que decidiu arriscar e avançar com a sua publicação. “Quando eu vi a fotografia da Demi Moore, nua e grávida, era absolutamente fantástica. Apaixonei-me loucamente e instantaneamente por ela” recordou Tina Brown durante uma conferência para a Greater Talent Network (GNT) em 2013.

O escândalo e as reações

Annie Leibovitz e imagem de Demi Moore
créditos: TIMOTHY A. CLARY / AFP

Colocar uma mulher grávida e nua na capa de uma revista de moda nos anos 1990 foi uma jogada arriscada e nada consensual entre a sociedade americana. A polémica foi tão grande que, para além de ter sido amplamente debatida na imprensa, a publicação daquela edição foi alvo de boicote em diversos estabelecimentos.

“Fora de Nova Iorque, a capa da revista é embrulhada em papel branco. Em Washington, alguns dos supermercados locais não têm a revista porque as crianças têm acesso fácil aos expositores. Mas o distribuidor da revista está confiante de que outras lojas, impressionadas pela atração escandalosa da capa, vão comprar as restantes cópias”, referiu um editorial do Los Angeles Times publicado em 1991 a propósito do tema.

Mas se para alguns esta capa foi uma ofensa, para outros foi sinónimo de um excelente trabalho. Que o diga George Lois para quem a edição conseguiu reunir os três ingredientes necessários para uma grande capa de revista - surpresa, choque e ligação – e onde Demi Moore se transformou num “símbolo de emancipação feminina”, referiu o famoso ilustrador num artigo para a Vanity Fair publicado perto do 10º aniversário do seu lançamento.

Passados 28 anos, Demi Moore acha que o facto de ter sido fotografada nua no sétimo mês de gestação para uma das maiores revistas de moda não merecia tamanha polémica. “Não consigo acreditar no quão louca foi a reação [das pessoas], como se fosse algo pornográfico. Como é que é possível?”, refletiu durante o The Howard Stern Show em outubro de 2019 sobre a tão falada capa.

O impacto cultural

Opiniões e polémicas à parte, a verdade é que a imagem foi um marco no mundo editorial e considerada uma das capas mais icónicas de sempre. Mas na opinião da revista TIME fez muito mais do que isso: mudou o mundo. “A foto foi a primeira fotografia de massas a sexualizar a gravidez, e muitos acharam-na demasiado chocante para as bancas de jornais. Outras cadeias de supermercados recusaram-se a ter a edição em stock, enquanto outros a cobriram como se de pornografia se tratasse. Que não era, obviamente. Mas foi uma capa provocadora, e fez aquilo que só as melhores capas conseguem: mudou a cultura”, justificou a publicação que, em 2016, a escolheu para integrar a lista ‘TIME 100 Photographs: The Most Influencial Images of All Time’ e ainda a incluiu no 'Top 10 Nude Magazine Covers'.

Apesar do impacto que veio a ter a nível mundial, na altura tanto Tina Brown como Annie Leibovitz nunca tiveram verdadeira noção do que estavam a fazer e do que ia acontecer após a publicação daquela capa. “Nunca pensei que se viesse a tornar na sensação que se tornou. Foi algo que marcou o espírito de uma época. De certa forma foi porque todas as mulheres se sentiram liberadas ao vê-la. Sentiram-se bem em poderem mostrar ao mundo que estavam grávidas. E [a capa] deu a volta ao mundo. Ainda agora é reproduzida em todo o mundo. E todas as estrelas de cinema grávidas tem de fazer a sua fotografia à Demi Moore” disse em 2013.

Aliás no ano seguinte, Demi Moore voltou a repetir a proeza ao aparecer na capa da Vanity Fair praticamente como veio ao mundo. Na edição de agosto de 1992, cujo título era "Demi's Birthday Suit", a roupa deu lugar a uma pintura corporal.

As imitações

Passados 28 anos do lançamento da capa protagonizada por Demi Moore, são inúmeras as celebridades e revistas de moda que lhe seguiram os passos. Cindy Crawford (W, junho de 1999), Brooke Shields (Vogue, abril de 2003), Britney Spears (Harper's Bazaar, agosto de 2006), Claudia Schiffer (Vogue, junho de 2010), Jessica Simpson (Elle, abril de 2012), Kourtney Kardashian (DuJour, dezembro de 2014), Blac Chyna (Paper, setembro de 2016) e Serena Williams (Vanity Fair, agosto de 2017) são alguns das figuras cujas capas ficaram na memória.

Recorde-se que a moda das celebrity nude maternity shoots chegaram às redes sociais, com a socialite Kim Kardashian e a cantora Beyoncé a emularem a icónica foto e a quebrarem recordes no Instagram. Em 2017 a intérprete de 'Listen' fez história ao anunciar ao mundo que estava à espera de gémeos. A fotografia, onde surgia de lingerie, tornou-se na 'Most liked image on Instagram', conseguindo mais de seis milhões de gostos em menos de oito horas segundo o site do Guinness World Records.

Mas o que será que Annie Leibovitz tem a dizer sobre o fenómeno copycat que perdura até aos dias hoje? “Foi uma fotografia que foi copiada vezes sem conta e faz-me tão feliz vê-la emulada e copiada” revelou a fotógrafa em conversa com o antigo editor-in-chief da publicação Graydon Carter durante o Vanity Fair New Establishment Summit em outubro de 2015.

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