A diabetes, doença caracterizada por uma incapacidade de manter valores de glicemia (açúcar no sangue) saudáveis, é das doenças mais prevalentes e com maior impacto na saúde pública a nível mundial. As estimativas mais recentes da Federação Internacional da Diabetes apontam para números de diagnóstico na ordem dos 425 milhões de pessoas.

Existem diferentes tipos de diabetes (tipo 1, tipo 2, gestacional, MODY, etc.) e embora todos tenham manifestações clínicas e sintomas semelhantes, a verdade é que são patologias diferentes, quer na origem (etiologia) quer na progressão.

A diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é a mais prevalente, correspondendo a cerca de 90% dos casos de diabetes, globalmente. Neste caso particular, a incapacidade de manter glicemias saudáveis deve-se a uma resistência das células à ação da hormona insulina e/ou a uma diminuição da sua produção. As razões desta resistência à insulina são várias e estão normalmente associadas a excesso de peso, dieta nutricionalmente pobre e energeticamente densa (poucos nutrientes, muitas calorias), genética e sedentarismo.

Qual a relevância da nutrição na diabetes tipo 2?

A nutrição, pelo seu efeito na gestão de peso e no metabolismo, tem uma importância crucial quer no desenvolvimento da doença quer na sua progressão. Ainda assim, e apesar do progresso científico dos últimos anos na formulação de recomendações nutricionais baseadas em evidência, continua a existir uma grande controvérsia e confusão no que diz respeito ao que comer para a prevenção, controlo e remissão da doença.

Evidência recente com base em estudos clínicos provou que uma intervenção nutricional adequada (uma dieta guiada por especialistas), associada a perda de peso, consegue reverter completamente um quadro de DM2, em indivíduos que ainda mantenham função das células secretoras de insulina (células beta). Mais ainda, as guidelines para a intervenção terapêutica num diabético tipo 2, começam por indicar a necessidade de alteração de estilos de vida (alimentação e atividade física) antes da administração de terapia farmacológica. No entanto, cada caso é um caso e alguns indivíduos não respondem tão bem a uma intervenção exclusivamente baseada em estilos de vida, daí a importância da flexibilidade no tratamento.

De facto, nada parece mais lógico no contexto da evidência atual do que a relação entre a nutrição e alimentação e o controlo glicémico. No entanto, apesar da evolução do conhecimento das ciências da nutrição e da sua importância na prevenção e promoção de saúde, ainda existem unidades de saúde nas quais não existem nutricionistas.

Idealmente, os serviços de saúde deveriam implementar estratégias de tratamento com base em equipas multidisciplinares no que diz respeito ao acompanhamento de patologias que envolvem simultaneamente auto-cuidado e alteração de estilos de vida. No caso particular da DM2, a complexidade da doença e as comorbilidades que lhe estão associadas (doença cardiovascular, pé diabético, retinopatia, etc) implicam uma equipa de profissionais com especialização em diferentes áreas de saúde.

Quais as recomendações nutricionais adequadas a um diabético tipo 2?

As recomendações gerais passam, essencialmente, por ter uma dieta equilibrada (exemplo: usar um modelo de prato em T para distribuir os grupos de alimentos a cada refeição principal), variada, colorida (mais vitaminas) e nutricionalmente densa (alimentos ricos em vários nutrientes como os hortofrutícolas, por exemplo). Este padrão alimentar condiz com o padrão alimentar mediterrânico, que é acessível na teoria (por razões quase geográficas) mas que na prática fica muito aquém daquilo que fazemos na realidade (os portugueses apresentam uma baixa adesão a este padrão) ...

Além das recomendações gerais para um padrão alimentar conhecido como promotor de saúde, os diabéticos podem e devem preocupar-se com outras questões relacionadas direta ou indiretamente com a alimentação, tais como:

Gestão do peso corporal

A DM2 surge em paralelo com o aumento de adiposidade (gordura corporal). Assim sendo, parece lógico que a perda de peso e a sua manutenção sejam um fator chave na prevenção e tratamento da doença. E sim, existem variadas formas de perder peso: mais ou menos rápidas, com ou sem hidratos, com ou sem jejum, etc.

O que realmente interessa é que a restrição seja eficaz, ou seja, que o doente consiga objetivamente perder gordura corporal, independentemente do quão gradual é a perda ou se a restrição é diária ou de apenas 2 vezes por semana. O fator chave é a quantidade de tecido adiposo que a dieta ajuda a mobilizar. Mais uma vez, sempre que possível, é importante haver uma abordagem personalizada e perceber qual a estratégia que melhor resulta para cada indivíduo.

Restrição calórica para remissão de diabetes tipo 2

Da mesma forma que o aumento de gordura corporal causa hiperglicemia, a perda de gordura corporal reverte a hiperglicemia, isto é, pode levar à remissão da doença. É importante percebermos o que se entende por “remissão”. Em geral, a comunidade científica e médica considera que um doente está em remissão quando a glicémia está abaixo dos valores de diagnóstico, sem que o doente esteja a tomar fármacos (por um período de tempo de, pelo menos, 1 ano). Este processo de remissão verificou-se inicialmente em doentes submetidos a cirurgia bariátrica e gradualmente foram aparecendo ensaios clínicos com o objetivo de avaliar a remissão da diabetes apenas com dieta e/ou atividade física.

Um estudo britânico muito recente – DiRECT study - avaliou o impacto da perda de peso, viabilizada por uma dieta de baixo valor energético, na remissão da DM2. Os resultados do estudo mostraram que a perda de peso era proporcional à taxa de remissão da doença. Mais ainda, a taxa de remissão foi de 86% nos indivíduos diabéticos que perderam 15 kg ou mais. Estes resultados foram publicados na revista LANCET e aguardamos agora ansiosamente os resultados do seguimento destes indivíduos por 4 anos. Em suma, o estudo mostra o quão promissora pode ser uma intervenção nutricional na remissão da doença e desvanece a teoria tradicional de que a DM2 é uma doença irreversível e progressiva.

Que alimentos específicos?

Vários estudos apontam para a importância do consumo regular de vegetais, frutos, leguminosas, cereais integrais, frutos gordos, também chamados de oleaginosas (ex. nozes, amêndoas, etc.), e alguns lacticínios, tais como o iogurte. É de notar que a informação relativamente aos frutos e oleaginosas é controversa. No caso da fruta fresca ou desidratada, o problema prende-se com a quantidade de frutose (açúcar simples) presente nestes alimentos. No entanto, a fruta é rica em vários outros nutrientes ou compostos que beneficiam o funcionamento adequado do organismo e da microbiota intestinal (fibra, fitoquimicos, vitaminas), tendo por isso um impacto benéfico na saúde, quando consumida de forma moderada. No caso das oleaginosas (frutos gordos), o problema é a quantidade de gordura e, consequentemente energia, que está presente nestes alimentos. Por outro lado, as oleaginosas têm uma quantidade limitada de hidratos de carbono e a gordura que contêm confere-lhes a capacidade de atrasar o esvaziamento gástrico e a absorção dos seus nutrientes. Assim, podem ser consumidas como snacks ou como ingrediente de refeições, para evitar picos de glicémia, na DM2.

E o que não comer?

Em relação aos alimentos a evitar, a evidência científica é clara em relação ao consumo de carnes processadas assim como de cereais refinados e açúcares de adição (açúcar de mesa, mel, etc.). Estes alimentos são, de facto, prejudiciais à prevenção e ao controlo da DM2. No caso da carne vermelha não processada a evidência é menos clara, mas dada a sua relação com a doença cardiovascular e alguns tipos de cancro, o ideal é limitar o seu consumo a 1 a 2 vezes por semana para prevenir complicações, sobretudo nos indivíduos que já sofrem de diabetes.

É também consensual o facto de o consumo excessivo de gorduras estar associado ao desenvolvimento de DM2, quer pelo seu impacto na ingestão calórica e aumento de peso, quer pela ação prejudicial direta da gordura no metabolismo. No entanto, entramos numa era em que a gordura saturada deixou de ser o principal alvo a abater. Fontes alimentares de alguns tipos de gordura saturada (como as carnes vermelhas já aqui mencionadas) podem ser um problema, mas nem toda a gordura saturada é má. O consumo de leite, queijo e iogurte, por exemplo, não parece estar associado a um risco aumentado de doença cardiovascular.

Por falar em leite... sim ou não?

O leite é outra das preocupações atuais para a população em geral e também para os diabéticos. Claro que para os intolerantes a lactose (pessoas que não conseguem digerir efetivamente o açúcar natural do leite) o consumo de lacticínios pode trazer algum desconforto. No entanto, é importante perceber que a intolerância é tanto pior quanto maior a ingestão. Outra questão importante é percebermos que os queijos e alguns iogurtes e produtos fermentados tem muito pouca lactose, porque esta já foi usada por microrganismos durante a fermentação. Assim, são soluções boas quer para os intolerantes à lactose, quer para os diabéticos, que beneficiam do consumo limitado de açucares simples. Além disso, o consumo de iogurte e outros produtos fermentados derivados de leite tem mostrado uma relação benéfica com doença cardiovascular – a principal preocupação do diabético.

A alimentação é tão importante no desenvolvimento da DM2, como na sua prevenção, controlo e no tratamento. Apesar das controvérsias, a ciência tem vindo a conseguir estabelecer recomendações padronizadas, muito úteis para aqueles que sofrem ou querem prevenir a doença assim como para os profissionais de saúde e a comunidade em geral. Embora a perda de peso e de gordura corporal seja ainda um desafio para os diabéticos e para a população em geral, a incorporação de pequenos hábitos alimentares saudáveis tem sempre um impacto positivo na saúde e podem conferir grandes vantagens metabólicas.

Um artigo da nutricionista Marta Silvestre, do Hospital CUF Descobertas.

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