A obesidade é uma doença causada por múltiplos e complexos fatores. À predisposição genética para o excesso de peso ou obesidade, podem juntar-se outros fatores como os psicológicos, os socioeconómicos, os culturais, os médicos e os hábitos de vida não saudáveis. Um ou, mais frequentemente, vários destes fatores serão responsáveis pelo desequilíbrio do balanço energético (aporte energético/dispêndio energético) e pelo consequente ganho de peso.

Constata-se existir um estigma social, mesmo entre os profissionais de saúde, de culpabilização do indivíduo obeso pela sua própria doença e pela ausência de vontade de perder peso. Sabemos que existem fatores complexos como os genéticos, os biológicos e os ambientais envolvidos na doença sob os quais o doente não pode ser responsabilizado. Associado a este fato, também a maior parte dos mecanismos de regulação da ingestão alimentar são automáticos e não refletidos, não dependendo assim da vontade do próprio indivíduo.

Tendo em conta a complexidade da doença, a avaliação e o tratamento do indivíduo obeso deverá ser tomada como um todo, física, para excluir causas médicas bem como diagnosticar e tratar outras doenças associadas, e psicológica.

A avaliação psicológica é crucial no doente obeso, não só para diagnosticar perturbações do comportamento alimentar como para refletir com o doente a possível existência de “fome emocional” e o apoiar no encontro de estratégias de motivação para o tratamento.

A “fome emocional” é assim designada, pois a ingesta alimentar depende das emoções e não da fome propriamente dita. Por exemplo, quando está zangado ou triste ingere maior quantidade de alimentos ou escolhe alimentos que confortem, como doces, num ato compensatório. Não existe uma compreensão das emoções mas apenas uma estratégia de as fazer desaparecer. Após estes episódios é quase inevitável um sentimento de culpa e, claro, o aumento de peso.

Entre a população obesa, a perturbação de ingestão compulsiva e a síndrome de ingestão noturna são as perturbações do comportamento alimentar mais prevalentes. Como doenças psiquiátricas, necessitam de avaliação e seguimento específicos também em Psiquiatria e Psicologia. Nestes doentes o autocontrolo a existir é na restrição alimentar entre as crises, na maior parte das vezes conseguido, perpetuando assim a ingestão compulsiva de alimentos.

Podem ainda existir perturbações do funcionamento psicológico como síndrome depressivo que tanto pode ser o fator precipitante da obesidade, consequência desta ou, pela tristeza e sentimento de incapacidade, fator de manutenção.

É pois, fundamental, que perante as mudanças propostas ao indivíduo obeso, haja uma abordagem pela equipa multidisciplinar compreensiva e desculpabilizante, o que permitirá ao doente a capacitação para enfrentar este e outros problemas de vida.

Como em qualquer outra doença crónica, o doente obeso deve ser envolvido e responsabilizado no controlo da sua doença. Ao serem identificados fatores precipitantes ou agravantes da doença, deverá a equipa multidisciplinar promover em conjunto com o doente estratégias de motivação para a mudança, por exemplo estimular a atividade física e/ou alterar o padrão da dieta alimentar com o objetivo de atingir um peso mais saudável.

Nesta perspetiva, de controlo da doença, a vontade e o autocontrolo do doente obeso terão um papel preponderante no sucesso do tratamento.

As explicações são da médica Zulmira Jorge, Endocrinologista no Hospital Cuf Infante Santo.

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