1. Fazer o rastreio auditivo neonatal

A surdez infantil é uma deficiência com um impacto significativo no desenvolvimento da criança.

Estima-se uma incidência de surdez de 1 a 3 em 1000 recém-nascidos saudáveis e de 20 a 40 em 1000 recém-nascidos de alto risco.

A surdez infantil perturba o desenvolvimento da linguagem, a comunicação, a aquisição de conhecimentos e a relação interpessoal, mas as alterações são subtis no lactente e o diagnóstico era tardio até à introdução do rastreio neonatal.

O rastreio neonatal, feito com otoemissões acústicas ou com potenciais evocados, permite orientar as crianças com suspeita de surdez para um processo de diagnóstico precoce, que deve estar completo até aos 6 meses de idade.

A utilização imediata de próteses auditivas, a estimulação auditiva e a orientação para colocação de implantes cocleares, idealmente até aos 24 meses de idade, permite uma reabilitação atempada e a aquisição de linguagem verbal.

2. Se houver suspeita de surdez recorrer de imediato a uma consulta Otorrinolaringologia 

A surdez pode manifestar-se durante toda a infância.

A causa mais frequente de surdez na infância é a otite serosa (também chamada otite mucosa, otite sero-mucosa, otite com derrame ou com efusão). Trata-se de uma doença que pode ser aguda, na sequência de uma otite média aguda, de uma constipação ou de um ataque de rinite, e que se pode resolver espontaneamente em menos de 3 meses. Mas também pode ser crónica ou recorrente, condicionando longos períodos com perdas auditivas significativas, sem que a criança se queixe. 

A surdez na infância também pode acontecer de uma forma progressiva e insidiosa, como em algumas doenças genéticas.

Qualquer criança que tenha um atraso no desenvolvimento da linguagem, que seja aparentemente distraída, em casa ou na escola, que tenha constipações frequentes ou uma rinite difícil de controlar deve ser seguida em consulta ORL e realizar exames audiológicos periódicos.

A instalação da surdez pode ainda ser súbita, unilateral ou bilateral, na sequência de um traumatismo cranioencefálico ou após uma infecção (principalmente papeira, varicela, meningite). As crianças mais velhas, os adolescentes e os adultos sentem e queixam-se, mas nas crianças mais pequenas a surdez, particularmente se unilateral, pode passar despercebida.

Qualquer destas situações deve motivar uma consulta ORL de urgência, para observação e testes de audição. A urgência é particularmente importante na surdez após meningite porque há uma janela temporal muito reduzida para se poder realizar um implante coclear e salvar a audição do(s) ouvido(s) afectado(s).

3. Cuidado com o uso de iPod, iPhone, MP3, MP4...

Os aparelhos portáteis de música actuais permitem a audição ininterrupta de horas ou dias de música sem repetição de nenhuma faixa e a intensidade sonora pode atingir os 120 dB.

Os utilizadores destes aparelhos, na maioria adolescentes e adultos jovens, tendem a usá-los durante várias horas, com volumes elevados.

O risco de desenvolvimento de surdez depende do volume de som e do tempo de exposição.

Os earphones (dentro do canal auditivo) possuem em média mais 5,5 dB de intensidade e menor cancelamento do ruído ambiente.

A utilização de bons headphones (sobre a orelha), com bom cancelamento de ruídos exteriores, permite uma boa audição com volumes mais baixos.

Usar os aparelhos de música portáteis com volumes de até 60% da escala de intensidade do aparelho ajuda a prevenir a surdez. A diminuição do tempo de utilização também diminui o risco de perda auditiva.

4. Usar proteção auricular eficaz contra o ruído

Nascemos apenas com 12-15000 células ciliadas, que são as células da audição, o que corresponde a 1 por cada 10.000.000 de neurónios.

A exposição a sons com volumes superiores a 60-70 dB é incomodativa e acima dos 80-90 dB pode provocar lesões irreversíveis na cóclea, por morte das células ciliadas.

Em muitas profissões o trabalhador está exposto a volumes de som demasiado elevados, demasiado tempo: trabalhadores de construção civil, operários em fábricas e oficinas, músicos, médicos dentistas, pilotos, militares, cabeleireiros, e tantos mais.

Mas a exposição ao ruído intenso ocorre também em muitos hobbies: caça, tiro desportivo, bricolage, música, concertos, corridas de motos ou de automóveis, são apenas alguns exemplos.

O respeito pelo uso de protecção adequada, exigido na legislação laboral, mas também quando estamos expostos ao ruído em actividades de lazer, ajuda eficazmente a prevenir a surdez.

5. Se necessário, remover o cerúmen, mas não usar cotonetes

O cerúmen é uma mistura de secreções e descamação da pele do canal auditivo externo, que limpa, protege  e lubrifica o canal auditivo. Um mecanismo de auto-limpeza assegura a sua migração para o exterior.

A manipulação do canal auditivo externo com cotonetes ou outros instrumentos e o uso de próteses auditivas ou de earphones, contrariam a natural expulsão do cerúmen podendo acompanhar-se de acumulação e mesmo de obstrução do canal auditivo, com perdas auditivas de 5 a 40 dB. Se estas situações acontecem consigo, deve consultar um ORL periodicamente, a cada 3 a 6 meses, para avaliação e eventual remoção de cerúmen impactado.

O seu médico removerá o cerúmen caso este lhe esteja a provocar perda auditiva ou dificuldades na avaliação do tímpano.

A remoção do cerúmen pode ser feita por lavagem, aplicação de gotas solventes de cerúmen, ou por remoção instrumental sob microscopia. Estão contra-indicados por serem perigosos métodos com velas, o uso de cotonetes ou a utilização pelo próprio de ganchos e outros instrumentos.

6. Usar próteses auditivas logo que a comunicação esteja a ser afectada

A prevalência de surdez no idoso é elevada, calculando-se que afecte cerca de 45% das pessoas com mais de 50 anos. Alguns estudos estimam uma perda de 5 a 9 dB por década acima dos 55 anos. A perda é habitualmente mais rápida nas frequências agudas, mas ao longo do tempo atinge todas as frequências.

Sendo um processo insidioso e lentamente progressivo, é habitual a pessoa não reconhecer e negar a perda auditiva. No entanto, é frequente a frase “eu ouço, mas não percebo”, como também é frequente não ouvir a campaínha ou o toque do telefone.

Nesta fase, é importante realizar exames audiológicos e colocar próteses auditivas. Ao contrário do entendimento geral, as próteses auditivas são extremamente discretas e passam quase despercebidas, ao contrário por exemplo do que acontece com os óculos, em que toda a gente repara.

O doente que recusa a adaptação protésica tende a isolar-se cada vez mais e, mais grave que isso, vai sofrendo uma degeneração neurológica secundária no córtex auditivo, tornando a cada ano que passa mais difícil e menos completa a reabilitação da sua surdez.

Um artigo de António Ferreira Marinho, Otorrinolaringologista no Hospital CUF Descobertas, e Carolina Marinho, aluna da Faculdade de Medicina de Lisboa.

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