Uma equipa de investigação do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) e do Centro de Investigação em Biomedicina (CBMR)/ Universidade do Algarve, liderada por Raquel Oliveira (IGC) e Rui Gonçalo Martinho (CBMR/ UAlg), descobriram que um mecanismo de controlo da divisão celular pode estar associado a um aumento dos erros na distribuição dos cromossomas.

Este processo pode ter impacto no desenvolvimento de patologias como o cancro, a infertilidade ou certas doenças congénitas. O estudo foi publicado hoje na revista científica Current Biology.

O ciclo celular do ser humano é composto por um conjunto de etapas que as células têm de realizar para dividir-se e duplicar-se. Uma correta divisão das células é importante para assegurar que as novas células recebem o número exato de cromossomas - onde se encontra localizada a nossa informação genética. Quando há falhas neste processo, os erros associados podem contribuir para o desenvolvimento de diversas doenças.

O polícia sinaleiro das células

A investigação, agora publicada, foca-se num mecanismo de regulação, o chamado “checkpoint mitótico” (ou via de controlo da mitose), crucial para garantir a correta separação dos cromossomas. Este “checkpoint mitótico” funciona como uma espécie de polícia sinaleiro que pára o trânsito sempre que há problemas de modo a prevenir acidentes.

da Raquel Oliveira (créditos Sandra Ribeiro)
Raquel Oliveira, investigadora do Instituto Gulbenkian Ciência créditos: Sandra Ribeiro / IGC

Até aqui já tinha sido comprovado que a ação “checkpoint mitótico” é importante para prevenir falhas na distribuição dos cromossomas durante a divisão celular, uma vez que consegue detetar erros dentro das células e parar o processo de divisão. O trabalho de investigação feito por esta equipa vem mostrar que nem sempre é assim e que, por vezes, a ação do policia sinaleiro pode ser contraproducente. Os investigadores mostraram que este era o caso quando as células apresentavam problemas na “cola” que une os cromossomas. Na presença destes erros irreversíveis, a ação continuada do “checkpoint mitótico” pode levar a um aumento dos erros genéticos.

Como explica Rui Martinho “se o problema for irreversível e se o polícia sinaleiro parar continuadamente o trânsito, a solução é pior que o problema, exacerbando a probabilidade de ocorrerem acidentes graves”.

A experiência, levada a cabo com a mosca-da-fruta Drosophila melanogaster, vem assim “abanar” um dogma científico – de que a função do “checkpoint mitótico” é sempre benéfica para as células em divisão.

"Checkpoint mitótico" alvo de terapias contra o cancro

Este estudo mostra que “erros associados à perda de coesão entre os cromossomas, comuns em várias doenças humanas, poderão até ser parcialmente corrigidos pela remoção do polícia sinaleiro, ao contrário do que seria de esperar”, explica Raquel Oliveira”.

O “checkpoint mitótico” é atualmente um dos alvos da terapia do cancro. A equipa está neste momento a testar se a observação descrita em mosca-da-fruta também se verifica em células humanas. Se for o caso, poderemos estar diante de uma importante descoberta que ajudará a compreender o papel do “checkpoint mitótico” e da coesão dos cromossomas no desenvolvimento das várias patologias. Estes resultados podem também vir a contribuir para a definição de estratégias terapêuticas, quer no cancro, quer em outras patologias associadas a erros na divisão celular.

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