Em entrevista à agência Lusa a propósito da atual pandemia de COVID-19, o antropólogo e historiador José Manuel Sobral identificou as doenças infecciosas transportadas para o continente americano pelos conquistadores espanhóis como um dos casos “mais espetaculares” de transformação numa sociedade devido a doenças desconhecidas.

“Foram transportadores de doenças como a gripe ou a varíola, que mataram milhões de pessoas”, afirmou o investigador do Centro de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

“Foram mais as vítimas das infeções de que os espanhóis eram portadores do que propriamente as causadas pela força das armas e pela brutalidade da escravatura, que também fez muitas vítimas”, sustentou José Manuel Sobral, considerando que este foi um dos “efeitos principais” da conquista espanhola na América central, no México e no Sul.

Relativamente às alterações que a atual pandemia de COVID-19 pode provocar numa sociedade a viver em confinamento e estado de emergência, José Manuel Sobral considerou ser ainda cedo para antever consequências.

“Neste momento não sabemos o que é a pandemia. Estamos perante uma pandemia de grande gravidade, mas não a mais grave que nos atingiu até hoje. Estou a falar dos últimos 100 anos”, precisou.

Antes, a “grande peste negra” (1347-1351) provocou despovoamentos na Europa, mas para o antropólogo não terá conduzido propriamente a uma revolução social, embora admita ser “matéria de reflexão”.

Já a gripe espanhola, ou pneumónica, a grande pandemia que afetou o mundo entre 1918 e 1920, não só provocou dezenas de milhões de vítimas como fez com que até hoje a gripe fosse “constantemente monitorizada a nível nacional e mundial”, destacou.

“Essa foi o grande flagelo contemporâneo, mas houve outras epidemias no século XIX, início do século XX, que tiveram a sua importância no desenvolvimento, por exemplo, das infraestruturas higiénicas num grande número de países, como epidemias transmitidas pela água, como cólera, por exemplo, que levaram à generalização dos sistemas sanitários, abastecimento de água aos domicílios e redes de esgotos”, sublinhou o investigador principal do ICS.

A generalização destas infraestruturas, frisou, acabou por ser acompanhada pela descoberta da ação dos micróbios na segunda metade do século XIX.

“Os vírus vão continuar e podem alterar completamente a nossa vida”, admitiu, sublinhando que o ritmo de propagação do contágio é hoje mais elevado e está muito ligado à “extrema mobilidade” da população.

“Estes focos de contágio que outrora iriam a pé ou a cavalo ou por barco, depois por caminho de ferro, hoje vão por avião. Portanto, a propagação do contágio é absolutamente rapidíssima”, declarou o investigador.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já comparou a pandemia de COVID-19 à causada pela gripe espanhola e avisou que o pior ainda está para vir.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Até hoje, a nível global a COVID-19 já provocou mais de 217 mil mortos e infetou mais de 3,1 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

Em Portugal, morreram 973 pessoas das 24.505 confirmadas como infetadas, e há 1.470 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

Para combater a pandemia, os governos mandaram para casa 4,5 mil milhões de pessoas (mais de metade da população do planeta), encerraram o comércio não essencial e reduziram drasticamente o tráfego aéreo, paralisando setores inteiros da economia mundial.

Face a uma diminuição de novos doentes em cuidados intensivos e de contágios, alguns países começaram a desenvolver planos de redução do confinamento e em alguns casos a aliviar diversas medidas.

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