As depressões vêm sendo atualmente consideradas um problema de saúde pública prioritário. São hoje reconhecidas como uma causa importante de incapacidade entre todos os problemas de saúde. Em Portugal, afeta, segundo as estimativas dos especialistas, cerca de 10% da população. Há profissionais de saúde que garantem ser mais. Quando se fala em depressão, pensa-se em tristeza. Porém, o que se observa na prática clínica é uma multiplicidade de sintomas.

Os mais comuns vão desde a melancolia, ao choro fácil e à apatia, passando por um aumento da irritabilidade, da angústia, da ansiedade, do desespero, da fadiga e por um cansaço fácil e constante. É normal essas pessoas afirmarem sentir o corpo pesado. A lista inclui ainda insónias, perda de apetite, diminuição do desejo sexual, pessimismo em relação a tudo, sentimentos de baixa autoestima e ruminações com mágoas antigas. Mas não só. Há mais!

Abrange ainda perturbações da memória e da concentração, dificuldade em tomar decisões, vontade em permanecer na cama todo o dia e em não conviver socialmente, surgimento de medos, de desconfianças e de audição de vozes, até ideias absurdas de culpa, de miséria, de doença ou mesmo de morte, desejo de desaparecer e de dormir para sempre. Aquilo a que não é dado o devido destaque é o facto da depressão ser uma doença que se acompanha frequentemente de vários sintomas físicos dolorosos, incluindo dores de cabeça, dores no estômago e/ou barriga, dores na coluna, dores nas articulações, dores nos músculos ou no pescoço.

Nas consultas, estas queixas são tão escutadas como a tristeza na alma e, muitas vezes, são as únicas que as pessoas referem. Geralmente, de início, os doentes e seus médicos de família, compreendem-nas como sintomas de uma doença física e, assim, são realizados muitos exames complementares de diagnóstico. A lista inclui geralmente radiografias, endoscopias, ecografias, colonoscopias, tomografias, ressonâncias magnéticas e análises sanguíneas.

Também há quem recomende eletroencefalogramas e/ou outros meios de diagnóstico complementares, muitas vezes com resultados inconclusivos. E o sofrimento mantém-se. Sabe-se que, para se tratar com total sucesso uma depressão, todos os sintomas, incluindo os dolorosos, devem ser eliminados. Assim, cabe às pessoas e aos médicos que as tratam que, perante sintomas físicos inexplicáveis, suspeitem da presença de depressão, pois ela dói na alma e no corpo.

Texto: Joana Sá Ferreira (médica interna de psiquiatria e investigadora)

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