A doença do refluxo é uma doença emergente que atinge cada vez mais a população. Estima-se que afete 15 a 20% das pessoas, pelo que já é designada como uma doença gastrenterológica do século XXI. É uma patologia crónica, ou seja, pode cursar a vida toda e o doente tem de aprender a lidar com ela.

As causas estão relacionadas com o estilo de vida da população, nomeadamente sedentarismo, hábitos alimentares - como fast food ou aumento das refeições noturnas -, aumento de peso, entre outras.

Como surge a doença?

A doença surge porque entre o esófago e o estômago existe uma válvula que deveria permitir somente que os alimentos descessem e não houvesse inversão no trajeto normal dos mesmos ou que o ácido gástrico refluísse.

O refluxo manifesta-se por ardor retroesternal a que se dá o nome de pirose, palavra que deriva do gregos pirós, fogo. Contudo existem outros sintomas que podem aparecer associados ao refluxo, como enfartamento, eructação (arrotar com mais frequência) ou produção de maior quantidade de saliva.

O refluxo apresenta, por vezes, manifestações extradigestivas, que podem ocorrer ao nível do foro da otorrinolaringologia, como sensação de corpo estranho na faringe, rouquidão, quebra na voz, tosse seca e irritativa, entre outras. O ácido que chega à boca pode até criar erosão dentária e provocar fraturas nos dentes.

A sintomatologia é, por isso, heterogénea, uma que a doença de refluxo pode afetar vários órgãos do corpo humano.

Como se diagnostica?

A doença de refluxo diagnostica-se essencialmente pela clínica, ou seja, a pirose (ardor retroesternal) é um dos sintomas dominantes que permitem um diagnóstico clínico.

A endoscopia é útil para perceber se existe ou não inflamação do esófago (esofagite), provocada pelo ácido do estômago que em alguns casos causa queimaduras no esófago.

A maioria dos doentes com doença de refluxo não tem esofagite, mas apresenta os sintomas - o ardor ou pirose - e devem, por isso, ser tratados. Nestes casos, trata-se de doença de refluxo sem esofagite ou não erosiva.

No caso do doente não apresentar alterações no esófago visíveis na endoscopia, pode ser feita uma prova terapêutica: são prescritos inibidores da bomba de protões para ver se o doente melhora.

Há outras técnicas, como a PH-metria esofágica de 24 horas que permite com maior acuidade fazer o diagnóstico da doença do refluxo nos casos duvidosos. É uma técnica muito invasiva que obriga o doente a andar com um tubo colocado no nariz até ao esófago. Existem outros exames complementares - como o RX e a manometria esofágica - que podem acrescentar mais dados ao diagnóstico.

O termo azia é uma expressão popular, mas não é um termo médico. Aquilo que se designa de azia varia de doente para doente: para uns é descrito como sendo um ardor no estômago, mas para outros pode ser uma acidez na boca ou a existência de pirose.

Como se trata?

O tratamento é para a vida. Há doentes que precisam de tomar fármacos de forma continua, como os inibidores das bombas de protões.

Os mesmos são eficazes enquanto são tomados. Quando se interrompe a terapêutica, os sintomas podem regressar.

A cirurgia é uma opção terapêutica em caso de o doente ser jovem, embora a mesma não seja de eficácia completamente duradoura, uma vez que pode haver uma recidiva da patologia.

Quando não tratada, a doença do refluxo pode dar origem a manifestações malignas, ou seja, cancro gastroesofágico.

Um artigo do médico António Pinto, especialista em Gastrenterologia no CHULC e no Hospital Lusíadas Lisboa.

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