Mesmo sendo a quimioterapia um dos tratamentos do cancro da mama com resultados expressivos de sobrevida para milhares de mulheres, é natural que a possibilidade de, nalguns casos, poupar as mulheres com cancro da mama ao uso de quimioterapia e respetivos efeitos colaterais levante curiosidade. De facto, prever se o cancro da mama irá voltar e se realizar quimioterapia vai contribuir para a possibilidade de evitar uma recidiva já é possível.

Através da ajuda de testes de diagnóstico é possível estudar a probabilidade do cancro voltar e, assim, obter mais informação capaz de apoiar, médicos e doentes, a ponderar e decidir se os benefícios da quimioterapia superam os riscos da sua realização.

É aqui que entra o teste Oncotype DX, que dentro de todos os testes que pretendem reduzir com segurança a utilização de quimioterapia, é o que nos oferece maiores condições de segurança e que tem mais estudos feitos, ou seja, existem dados concretos que oferecem maior segurança aos profissionais de saúde.

Atenção que não se trata de uma ferramenta indispensável, mas sim de uma ferramenta complementar, porque funciona como mais um método de apoio à tomada de decisão em doentes que foram operadas a um carcinoma da mama e que estão na fase de planear os seus tratamentos futuros. Há indicações precisas para fazer este teste e nem todas as mulheres com cancro da mama são candidatas. Por outro lado, nem todas as instituições o utilizam.

Como funciona o teste Oncotype DX?

Os resultados do teste apresentam um score de recorrência que nos diz qual a probabilidade de recidiva do cancro: a escala vai de 0 a 100, sendo repartida em três níveis de medição do risco de recorrência de cancro, a saber: Score 0 a 17: baixo risco de recidiva ou baixa recorrência; Score 18 a 30: risco moderado de recidiva; Score 31 a 100: risco alto de recidiva. Quer isto dizer que quanto mais baixo o valor da escala, mais baixo é o risco do cancro voltar, pelo que a equipa multidisciplinar avalia se apostar na terapêutica hormonal sem realização de quimioterapia é uma opção a aconselhar. Por outro lado, quando o score é elevado o risco de recorrência de cancro da mama é alto, adicionar quimioterapia ao tratamento vai contribuir para diminuir este risco.

Cada caso é um caso

Poderá não fazer sentido tratar com quimioterapia a maioria das mulheres com mais de 50 anos, que foram operadas por carcinoma da mama e que não têm evidência de invasão dos gânglios da axila, se tivermos a possibilidade de lhes fazer este teste e o resultado for entre 11 e 25.

Já nas mulheres abaixo dos 50 anos, a história natural do carcinoma da mama é diferente. Com resultados numéricos de risco no Oncotype Dx acima de 16, deve ser discutido o uso de quimioterapia, pois o benefício desta terapêutica para evitar a recorrência é de cerca de 5% - este valor de redução do risco é um valor importante e expressivo neste grupo.

Para além da idade, também o tamanho dos tumores influencia a segurança na decisão de abstenção ou não à quimioterapia - sendo que  abstenção tende a ser mais segura em tumores de dimensão inferior a 2 centímetros.

Na verdade são mesmo muitos os fatores que influenciam a decisão, pelo que, de forma decisiva, nada substitui a relevância da tomada de decisão conjunta em reunião multidisciplinar e uma longa consulta com o oncologista, pois no fim do dia, a decisão é um processo informado, conjunto e muito cúmplice entre doente e médico.

As mulheres com cancro da mama anseiam pela decisão terapêutica pós teste, pois em geral gostariam de evitar ao máximo o processo de quimioterapia. Contudo, é preciso que fique claro que a terapêutica endócrina ou anti-hormonal, também não está isenta de riscos, e nas doentes que são candidatas a este teste, se não fazem quimioterapia, farão sempre estes comprimidos anti-hormonais.

Embora, nos dias de hoje, os efeitos da quimioterapia já sejam melhor tolerados pelas doentes, melhor controlados com outros fármacos e com outras valências de suporte, existem sempre efeitos colaterais mais evidentes e impactantes no dia-a-dia das mulheres. Portanto, sempre que tenhamos todos os dados necessários e que com toda a segurança se possa optar por não realizar quimioterapia, assim o devemos procurar fazer.

As explicações são da médica Sofia Braga, Oncologista com especialização em cancro da mama e Coordenadora Científica do Instituto CUF de Oncologia.

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