Funcionando como um segundo coração do organismo, os pés são um dos nossos grandes aliados. Enquanto crianças,
ajudam-nos nas mil e uma brincadeiras, nas corridas e nas danças.

Mais tarde, a beleza dos pés torna-se imperiosa. Entre massagens, bijutarias e cores, tudo serve para mimá-los! Mas, tenha atenção, o bem-estar dos pés passa pela sua saúde.

«O pé é o alicerce de todo o organismo humano, responsável pelo equilíbrio, permitindo, com a sua especificidade dinâmica, que o sangue seja bombeado em sentido ascendente», explica, desde logo, Manuel Azevedo Portela, presidente da Associação Portuguesa de Podologia.

Pela sua extrema importância «é, sem dúvida, um órgão digno de respeito, atenção, investigação, diagnóstico e tratamento específico, personalizado e orientado segundo as patologias de que é alvo», afirma o especialista.

Pé chato

É o termo vulgarmente usado, mas que tecnicamente é definido como pé plano. Este tipo de pé caracteriza-se principalmente por apresentar uma diminuição ou ausência do Arco Longitudinal Interno (ALI).

«A diminuição do arco do pé é frequente existir nos pés dos recém-nascidos. No entanto, com o processo de aprendizagem da marcha e do desenvolvimento motor, deve existir paralelamente associado um desenvolvimento ósseo, muscular e ligamentar capaz de desenvolver uma morfologia fisiológica do pé, ou seja a configuração do Arco Longitudinal Interno», explica Manuel Azevedo Portela.

Este especialista refere ainda que, se esta diminuição existir «até aos dois anos não é preocupante, excepto em situações mais evidentes ou patológicas, devendo por isso, a partir desta idade, existir a normalização do pé e a configuração do arco interno». No caso do aparecimento do problema em fase adulta, o especialista alerta para «alterações funcionais, por vezes até incapacitantes».

Ao pé plano na idade adulta estão associados alguns fenómenos, como os esporões do calcâneo, as fasceites plantares, os joanetes e alterações de degeneração articular, artroses e dores nos pés.

As consequências passam pela diminuição da capacidade de adaptação às irregularidades do piso e da flexibilidade do pé, conduzindo a uma adaptação articular e muscular inapropriada ao caminhar e ao normal funcionamento e adaptação de todo o organismo humano.

Veja na página seguinte: Pé diabético e pé reumático

Pé diabético

A diabetes é uma das doenças que muito preocupa a comunidade médica e grande parte das famílias portuguesas.

Quando falamos de diabetes, referimo-nos a uma alteração metabólica do organismo humano que afecta determinados órgãos, estruturas e sistemas.

«Os sinais e sintomas mais frequentes no pé diabético caracterizam-se pelo aparecimento de alterações da temperatura do pé, cor, textura da pele, bem como alteração da sensibilidade, aparecimento de formigueiros, ausência ou diminuição de pêlos nas pernas e nos pés, alterações das unhas e impotência funcional das capacidades de suporte, estabilidade e equilíbrio do próprio pé», enumera o podologista.

E como mais vale prevenir do que remediar, o especialista sublinha que «a primeira linha de orientação e tratamento do pé de risco deve ser a prevenção. No entanto, quando a prevenção primária não é possível, deve-se seguir um rigoroso plano de tratamento, de modo a prevenir as tão temidas amputações do pé.»

Pé reumático

As deformidades que geralmente aparecem com a evolução desta doença «evidenciam-se sobretudo nas mãos e pés, como os dedos em garra, desvio peroneal e umeral dos dedos, subluxações e luxações das articulações, podendo, também, levar à anquilose total da articulação», explica o podologista.

Os sintomas de pé reumático descritos pelo especialista traduzem-se-se num aumento de volume do pé, discreto aumento de temperatura, dor à palpação e mobilização articular, com característicos envolvimentos simétricos, acompanhado de rigidez matinal prolongada (superior a uma hora!).

O tratamento podológico na artrite reumatóide é fundamental em toda a fase de evolução da doença, uma vez que o principal objectivo é minorar situações dolorosas e incapacitantes, melhorando a mobilidade dos doentes e contribuindo para a prevenção de deformidades da função articular.

Unha encravada

A unha é bem mais do que um puro anexo da pele que gostamos de embelezar de mil cores. Ela tem, primeiro que tudo, importantes funções de protecção de traumatismos e de propulsão durante o caminhar, permitindo uma marcha mais equilibrada e harmoniosa.

«A unha encravada pode apresentar-se com os cantos encarnados nos tecidos periungueais, provocando dor, inflamação e, em alguns casos com infecção, pode evoluir para um granuloma, desenvolvimento de tecido esponjoso sobreposto às unhas», descreve Manuel Azevedo Portela. A atribuição de culpas à má qualidade do calçado não é suficiente, garante o especialista.

«O calçado é considerado por muitos o responsável por todas as doenças nos pés mas, na realidade, não é verdade. Alterações de apoio do pé, desvios rotacionais dos dedos, dedos em garra ou em martelo e joanetes, são alterações biomecânicas importantíssimas que estão na génese desta patologia».

Só quando associado a algumas destas patologias poderemos responsabilizar o calçado pelo aparecimento das unhas encravadas. O primeiro passo rumo ao tratamento é estudar a etiologia da doença. Só ao percebermos a causa desencadeante do problema poderemos alcançar um maior êxito no seu tratamento.

Veja na página seguinte: Calos e calosidades

alos ou calosidades

É, provavelmente, a patologia que mais incomoda os pés dos portugueses, traduzindo-se por um espessamento anormal da pele. Conforme explica o médico especialista, «a pele tem uma substância denominada queratina responsável pela resistência e elasticidade da pele.

Quando existe um excesso de pressão num determinado ponto da pele, é estimulada a produção de queratina pelos queratinócitos, provocando um espessamento exagerado da pele conhecido como calosidade».

Mas o que fazer para tratar os tão inestéticos e indesejados calos? «Simplesmente retirar os calos ou as calosidades não é o melhor procedimento», revela o podologista.

Tal como no caso da unha encravada, também em relação às calosidades deverá ser investigada a causa e direccionar o tratamento em função desta. O podologista realça que «se estivermos perante um pé cavo, deveremos, em primeiro lugar, compensá-lo, redistribuindo os pontos de pressão plantar e posteriormente retirar as calos ou calosidades».

Dica
Para evitar doenças, tenha atenção a quedas frequentes e ao desgaste e deformação do seu calçado.

Sabia que...
O salto do sapato deve ser largo, estável e não exceder os três centímetros.

Pés cuidados

Para que possa exibi-los com orgulho, siga estas regras:

- Lave os pés diariamente com sabonete e ph neutro
- Seque-os muito bem, especialmente nos espaços interdigitais
- Observe os pés diariamente, directamente ou através de um espelho
- Hidrate-os recorrendo a um produto específico
- Corte as unhas de forma recta, com um instrumento desinfectado e de uso pessoal
- Use meias de fibras naturais (lã, algodão, seda)
- Opte por calçado de material natural (pele, couro)
- O calçado deve ser adquirido ao final do dia
- O sapato deve respeitar o comprimento e largura do pé
- O salto deve ser largo, estável e não exceder os três centímetros
- Vá alternando o calçado que usa ao longo da semana e coloque-o diariamente a arejar
- Após longas caminhadas, realize um pequeno período de repouso com as pernas elevadas
- Consulte um podologista sempre que exista qualquer sinal ou sintoma de patologia nos pés
- Caso não exista qualquer alteração nos pés deverá realizar uma consulta de podologia uma vez por ano. Certifique-se que está a ser tratada por um profissional reconhecido pela Associação Portuguesa de Podologia

Texto: Raquel Pires com Manuel Azevedo Portela (podologista e presidente da Associação Portuguesa de Podologia)

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.