A maneira como tendemos a organizar o mundo está associada a um sistema de crenças que desenvolvemos ao longo da vida. Esta estrutura cognitiva-afetiva, resultado das nossas experiências e aprendizagens, reflete-se na maneira como pensamos, sentimos e agimos, e assim, de forma inevitável, na maneira como tendemos a antecipar o futuro e a projetarmo-nos neste. Por outras palavras, esta contribui para o desenvolvimento de expectativas em relação a nós próprios, às nossas relações, aos desafios académicos ou profissionais que se apresentam, ou simplesmente, àquela que acreditamos ser a probabilidade de ocorrência de um determinado acontecimento.

Num mundo em que é cada vez mais difícil tolerar "o não saber”, a incerteza, quão reconfortante e seguro é, ainda que de forma pensada e/ou imaginada, ter a capacidade de prever o dia de amanhã? Acreditar que as nossas ações, ou mesmo outras variáveis exteriores a nós, são mais ou menos favoráveis a determinados resultados ou objetivos, ajuda-nos a tolerar melhor o futuro incerto e pouco conhecido, e de alguma forma, a estar melhor preparados para o que se avizinha.

A criação de expectativas em relação aos vários domínios da vida faz parte do nosso dia-a-dia, tendo um papel preponderante na motivação que sentimos face às várias ações e tarefas em que nos envolvemos, assim como, no significado que atribuímos a estas últimas. Por exemplo, acredito que se for simpático, é mais provável que ele/a goste de mim; acredito que se trabalhar muito e mostrar iniciativa, é mais provável que notem em mim e seja promovido.

No entanto, tendo em conta a relação mais ou menos direta que as expectativas têm com a maneira como atuamos, o que acontece quando aquilo que aprendemos a esperar é permanentemente o insucesso, ou simplesmente, a não ocorrência de algo que acreditamos ser o melhor para nós, que desejávamos? O que acontece quando, por exemplo, fruto de algum desânimo e cansaço, nos encontramos aprisionados a um determinado tipo de expectativas, ou não estamos tão capazes de lidar com a desilusão de não as ver concretizadas? Muitas das dificuldades psicológicas que aparecem nos dias de hoje (por exemplo, depressão ou ansiedade), parecem assentar, a par com outros fatores, numa reduzida capacidade para desenvolver expectativas mais saudáveis, flexíveis e próximas da realidade, como também, na subjacente tendência para olhar para as estas como certezas e não como possibilidades.

É fácil perceber como é que este tipo de crenças pode ser encarado como certezas quando aparecem no formato de resultados muito concretos, que assentam em relações (muito) lineares entre comportamentos e consequências – se não fechar a torneira a água vai continuar a correr; se não comer durante oito horas vou ficar com fome; se não estudar hoje para o teste de amanhã, então é muito provável que não seja bem-sucedido. Porém, fazê-lo, poderá representar um maior risco para o bem-estar (por exemplo, desilusões consecutivas) quando as expectativas aparecem de forma mais ambígua e parecem apenas refletir estados de espírito específicos ou necessidades individuais que se pretendem ver satisfeitas, que não atentam às circunstâncias e condições reais, internas ou externas ao indivíduo, que devem ser encontradas para a concretização das mesmas. Por exemplo, posso querer e acreditar que é muito provável ser promovido tendo em conta o meu empenho e dedicação, contudo, esta crença pode ser menos realista se a empresa em que trabalho estiver a atravessar uma crise financeira.

A sensação de controlo inerente ao criar e ter expectativas em relação ao futuro, pode de facto promover tranquilidade e orientação para o caminho que nos propomos percorrer. Ainda assim, se não olharmos para estas com flexibilidade, como possibilidades, corremos o risco de ser guiados por meras ilusões, que influenciam de forma enviesada aquilo a que prestamos atenção e a maneira como respondemos às situações. Deste modo, é nosso dever e responsabilidade gerir adequadamente este tipo de crenças, fazendo permanentemente o exercício de perceber e diferenciar aquilo que sustenta determinado tipo de expectativas – será que há mesmo condições para que isto aconteça, ou estarão as minhas necessidades a falar mais alto? –, perceber quão próximas estas se encontram da realidade, ser proactivo na sua concretização e colocar em perspetiva resultados alternativos aos que se esperava.

Sofia Sousa de Macedo - Psicologia Clínica

Psinove – Inovamos a Psicologia