Os robôs ameaçam acabar com as formas de recrutamento tradicionais nos próximos anos. A empresa HireVue desenvolveu um sistema de inteligência artificial que consegue captar 25.000 características de um candidato a um determinado lugar numa única entrevista de emprego. Depois do matching, processo que pretende identificar compatibilidades, as atenções voltam-se agora para os chatbots, agentes de conversação digitais.

No entanto, a expressão que tem vindo a assumir uma importância maior tem sido digital assessment, usada para descrever os processos de avaliação digital que muitas empresas, sobretudo lá fora, já começam a empreender. "As tecnologias de matching comparam os perfis dos candidatos com os requisitos dos anúncios dos empregadores", explica a jornalista Anne-Charlotte Müller num artigo publicado há dias.

Yooture, Moberries, Truffles e Talentfly são algumas das principais aplicações usadas. "Estes programas funcionam como se fossem o Tinder do emprego", sublinha. Apesar de existirem desde a década de 1950, só recentemente é que os chatbots começaram a ser usados em processos de recrutamento. A principal vantagem destes agentes de conversação digitais é a rapidez em comparação com as entrevistas presenciais.

A sala digital que está em fase de testes

O vídeo assume uma importância fundamental nos processos de digital assessment. A entidade recrutadora pede ao candidato que se filme enquanto responde a uma série de perguntas pré-gravadas, como as que o portal de recrutamento HireView disponibiliza. Enquanto isso, um robô analisa as palavras e todos os gestos dos candidatos, incluindo as mudanças de postura, as pausas, as expressões faciais e o tom da voz.

Se for considerado apto, o avaliado é depois contatado para uma entrevista presencial. A empresa de recrutamento Manpower, que também opera em Portugal, tem atualmente em testes uma digital room, uma sala repleta de câmaras, microfones e outros captadores de som e imagem. Sentado em frente a um ecrã, face a um avatar, o candidato ao emprego responde às perguntas que lhe são feitas.

Tal como sucede com o HireView, todas as suas reações são analisadas ao mais ínfimo pormenor. "Nesta fase, as pessoas ainda têm de se dirigir a essas instalações mas, num futuro próximo, gostaríamos que esse programa pudesse ser usado à distância, através de qualquer computador", afirmou um dos diretores de marketing e comunicação de um dos países europeus da empresa a um jornal suíço.

As opiniões de quem já foi submetido a esta forma de recrutamento

Humanoïdjob é o nome de um dos robôs que, nos últimos meses, têm sido responsáveis pelo recrutamento de colaboradores em várias partes do mundo. O francês Hubert Levesque, graças a "um sistema paralelo de chatbots e de algoritmos originais", como os descreve, é um deles. "A empresa que me contratou não procurava apenas as competências por detrás de um nome e de uma fotografia num currículo", diz.

"Eles queriam mais. Procuravam um perfil atípico que aliasse conhecimentos determinantes a experiências significativas, competências técnicas irrefutáveis e um sentido de iniciativa, de criatividade e uma diversidade que nem sempre um CV reflete", escreveu o agora diretor-geral da empresa de recrutamento e valorização de competências Morgan McKinley em outubro do ano passado.

Já há robôs a recrutar pessoas para o mercado de trabalho

Em novembro de 2017, em França, a empresa organizadora de viagens Marco Vasco, seguindo o exemplo da Vinci e da Adecco, recorreu a um chatbot, ao qual deu o nome de Marco, para aumentar o número de funcionários. Na Austrália, com as mesmas funções, foi também já apresentada publicamente a Matilda, um robô com 40 centímetros de altura que também faz perguntas e analisa respostas e comportamentos.

"Estas máquinas são muito fiáveis tendo em conta o fim para o qual foram desenvolvidas. São parametrizadas e foram otimizadas para reter apenas os currículos que contenham palavras-chave relacionadas com as competências e as funções desejadas", garantiu Laurianne Laval, gestora de marking do site MyJobCompany, em 2014, numa fase em que a evolução ainda não tinha atingido o patamar dos dias que correm.

Para muitos empregadores internacionais que já a adotaram, esta solução afigura-se a melhor, mas a maioria dos candidatos a um posto de trabalho não tem a mesma opinião. "Acho desumano nunca conseguirmos chegar a um empregador físico", criticou mesmo um canalizador britânico com mais de 40 anos que foi submetido a um processo de recrutamento por esta via em declarações ao jornal The Guardian.

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