Garante que o segredo da sabedoria está na flexibilidade mental; a mesma que nos permite ter a “capacidade porosa como a neve de se ser suave mas ao mesmo tempo forte”. Sublinha que quem controla a mente e o corpo consegue ser elástico “como um gato que cai de uma janela e sobrevive.” Destaca que cada pessoa deve aprender a fluir “como o rio que sabe encontrar os pontos de menor resistência para prosseguir o seu caminho” … são estes e muitos outros os ensinamentos de Ramiro Calle.

Mestre de yoga, professor da Universidade Autónoma de Madrid e um dos escritores orientalistas mais importantes de Espanha, numa altura em que veio a Portugal promover o seu livro O Homem que Procurava o Sentido da Vida, confessou-se um eterno aprendiz e, depois de mais de setenta viagens à Ásia, conclui: “a sabedoria é sermos capazes de vermos as coisas como elas são; não como as queremos ver ou como os outros querem que as vejamos”

Quem é O Homem que Procurava o Sentido da Vida e que dá título ao seu livro?

Ramiro Calle – É um ocidental, um profissional com meios económicos e que conquistou muita notoriedade mas que se sente profundamente insatisfeito vivendo uma grande crise existencial. Decide então viajar para a Índia para encontrar as motivações, as chaves para desenvolver o seu mundo interior e sentir-se mais feliz. É um relato espiritual no qual há muito de personagens reais ligadas por um fio condutor que é o meio para encontrar a paz interior, a sabedoria e o auto-conhecimento.

Qual é o verdadeiro sentido da vida?

É aquele que cada um, a cada momento, pode ou queira dar à sua vida; cada pessoa deve encontrar o seu próprio sentido da vida pois sem ele vive-se o vazio; uma existência totalmente cinzenta.

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Qual é a melhor forma de cada um alcançar esse encontro com o sentido da sua própria vida?

Na realidade todos andamos perdidos. Abandonámos o nosso lado interior – a nossa casa; estamos dominados pelo que nos é exterior; jogamos às escondidas com nós mesmos. Para muitas pessoas nem sequer existe a pergunta: “Qual é o sentido da minha vida?”

Refere-se, portanto, à vivência mecânica do dia-a-dia…

Sim. De uma maneira geral, as pessoas vivem de forma robotizada… não há nas suas vidas ternura, compaixão, compreensão… Estamos como que num circuito repetitivo de consciência. De manhã, quando acordamos, acreditamos que estamos muito despertos mas, na verdade, estamos sim num estado de sonambulismo; num estado de consciência muito pobre. Só as pessoas que realmente querem escalar outros níveis de consciência o vão conseguindo.

“Escalar outros níveis de consciência” é representado pela montanha que o protagonista do seu livro tem de subir?

Sim, a montanha simboliza exteriormente aquilo que é o interior de cada um; temos que nos ir conquistando a nós mesmos; temos que ir subindo a nossa montanha interior! O grande problema consiste, no entanto, em rompermos a mecanicidade a que nos habituámos. Para isso, só existe um sistema: a consciência!

A consciência é o primeiro passo para a sabedoria?

É necessário estarmos mais conscientes, mais atentos, mais despertos… Muitas vezes estamos mais conscientes do passado, do futuro… e menos do mais importante: o aqui e o agora! É necessário aprendermos a viver em ligação a cada momento e a cada instante... mas isso implica muito trabalho.

Como é que se quebra esse ciclo de automatismo?

Antes de mais adquirindo a consciência de que se por um lado as outras pessoas podem até ajudar-nos em coisas do dia a dia, por outro, interiormente cada um tem de fazer o seu próprio labor; a sua própria procura interior.

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O yoga é uma porta para adquirir essa consciência?

Todo o yoga é uma busca da consciência. O yoga é união do corpo com a mente; a fusão do consciente com o inconsciente; a junção da nossa consciência individual com a consciência cósmica. Todos os métodos e técnicas do yoga são para ganhar consciência. As técnicas de postura, de controlo respiratório e de meditação têm uma finalidade: tornar‑nos mais conscientes! Perdemos a consciência constantemente pelo que há que recuperá-la. Esta leva à lucidez a qual, por sua vez, conduz à compaixão.

O exercício físico do yoga – que, normalmente, apela à elasticidade do corpo – é um fio condutor para a maleabilidade da mente?

Sim, é esse o princípio. A flexibilidade da mente é essencial. Há que lograr harmonia em corpo, em energias, em mente e em afectos… na relação com os demais. Todas as técnicas do yoga físico foram mal interpretadas; muitas vezes não se entende que utilizamos o corpo como um instrumento para chegar à mente.

Qual é, na realidade, a importância dessa flexibilidade?

Sem dúvida que mais importante do que a flexibilidade física é a mental – é saber ver as coisas a partir de todos os pontos de vista; é ter a capacidade porosa como a neve de se ser suave mas ao mesmo tempo forte. Quando se é flexível é-se como um gato. O gato cai de uma janela e sobrevive porque controla a mente e o corpo. Temos que aprender a ser elásticos… como o rio que flui porque sabe encontrar os pontos de menor resistência para prosseguir o seu caminho.

Não é possível ter-se uma mente elástica sem elasticidade física?

Podemos ter uma mente muito elástica e nenhuma elasticidade física. Também há pessoas que têm uma elasticidade física tremenda e, no entanto, a sua mente é como uma barra de ferro. O que sucede é que se não se trabalha o corpo com um sentido de abertura dificilmente se consegue ir mudando a atitude. Todos estamos petrificados. Há que aplicar as técnicas para a flexibilidade física e mental. A flexibilidade é vida. A rigidez, como um cadáver, é morte. A verdadeira flexibilidade consiste em que a mente nasça a cada momento. É esse o motivo porque no yoga dizemos que não nos predispomos apenas a aprender mas também a desaprender; a deitar por terra muitas das coisas que nos vão cegando.

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É a desconstrução que conduz à sabedoria?

Sim. Muitas vezes perguntei aos mestres indianos: “O que é a sabedoria?” A resposta é: vermos as coisas como elas são! Em contraste, normalmente, vemo-las como queremos e como nos disseram que são. Para conseguirmos chegar mais além temos, em primeiro lugar, de libertarmo-nos de todo o tipo de esquemas, padrões, vícios, crenças e doutrinamentos. Há que deixar a mente límpida como um espelho que reflicta o que somos. No entanto, é um facto que preferimos sempre o enredo…

Actualmente, as pessoas estão mais próximas ou afastadas da sua “casa interior”?

O que eu vejo é que necessitamos ser pensadores livres para juntarmos o melhor do Ocidente com o melhor do Oriente. O melhor do Ocidente: a ciência e a técnica quando utilizadas em prol do verdadeiro desenvolvimento humano e da paz. O melhor do Oriente: as técnicas e métodos que nos ajudam a auto-conhecermo‑nos, a vermo-nos, a sentirmo-nos e a melhorarmo-nos. Tem de haver um matrimónio entre a ciência e a metafísica, a técnica e a espiritualidade, pelo que para isso será necessária outra mente. Dizemos que criámos uma sociedade de bem-estar e, contudo, há milhões de pessoas a sofrer de ansiedade, de depressão... É uma “sociedade do bem‑estar” com muito pouco bem-estar.

Dada a procura pela espiritualidade, nomeadamente, a actual maior aceitação das filosofias orientais assim como a própria busca pela música de raízes (como a “música do mundo”)… Não há sinais de inversão?

É um facto que há uma maior abertura à espiritualidade, no entanto, esta é muito débil e por vezes até enganadora. dado que o que na realidade muitas vezes acontece é que a “mente velha”, presente no Ocidente, manipula toda essa “aparente” abertura.

Tendo em conta a sua formação científica, como é que consegue conciliar a ciência com a espiritualidade?

A verdadeira espiritualidade nada tem a ver com a eclesiástica ou com a religião. Uma coisa é a espiritualidade outra é a religião. Pode-se ser muito espiritual numa discoteca, numa oficina, num hipermercado… impregnar toda a vida diária de espiritualidade no sentido de melhoramento, de compaixão, de cooperação… Poder-se-ia falar em espiritualidade científica e em ciência espiritual se os cientistas entendessem que a espiritualidade não é uma ameaça mas uma dimensão do ser humano; que se pode ser muito científico e ao mesmo tempo muito espiritual. O verdadeiro ser espiritual, ao contrário do que por vezes se pensa, não tem de ser dogmático ou pertencer a qualquer religião, mas ser uma pessoa com mente elástica e a tudo dar um sentido de sossego e de compaixão.

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Pode dizer-se que diferença entre espiritualidade e religiosidade é a de que na primeira o culto é voltado para si próprio, isto é, no sentido do auto-conhecimento e na segunda para uma entidade exterior, para um deus?

Uma coisa é a religião organizada, instituída, as igrejas, as paróquias… o eclesiástico que nada tem a ver com os fundadores. Outra é o místico; o místico pode ser ateu ou ateísta; pode ser ou não religioso. O místico tem o desejo de se sentir fundido com tudo o que o envolve como parte do ser cósmico. As religiões provocaram muitos danos porque interpretaram muito mal os ensinamentos dos seus fundadores. A espiritualidade é experiência. A religião é crença. A espiritualidade em vez do “é assim porque é assim” e tem de se crer, consiste em que cada um, com o seu próprio trabalho interior, vá escalando estados de consciência. O que nos transforma não é a crença mas a experiência.

O facto de o yoga se ter tornado numa moda não contradiz a sua própria essência?

O que temos que entender é que o yoga é o primeiro método de melhoramento humano e o pior que podemos fazer por ele é conferir-lhe um carácter endeusante, carregado de religiosidade oriental… o yoga é um método asséptico, livre de doutrinas – pelo que respeita todas as crenças – cada pessoa tem as suas e nenhuma escola, mestre, professor tem o direito de impor quaisquer outras. Muitos vão ao yoga por moda, outros sem fazerem qualquer ideia do que é… mas ele é um campo tão ilimitado de conhecimentos que eu, que já tenho 50 anos de yoga, continuo a ser um aprendiz.

No entanto, verifica-se por vezes a rivalidade entre escolas… há as que, em detrimentos de todas as outras, garantem que são as que ensinam o verdadeiro yoga …

É incrível que no mundo da nova era, da espiritualidade, do yoga… haja tantos egos doentes, tanto orgulho – o pior orgulho é o espiritual! É, de facto, uma pena que haja tantos vendedores de bazar dizendo: o meu produto é bom e o teu é mau. Tudo isso é mediocridade, ruindade e, no final, denota que pessoas que o fazem, mesmo que já tenham 20 anos de yoga, não são, na realidade, yogis.

O yoga é a única forma de se chegar ao auto-conhecimento?

Há muitas outras. O que se passa é que tudo o que é método de auto‑conhecimento é yoga; ele é o tronco. Há muitas filosofias mas de nada servem se não assentarem em método.

Texto: Nuno Duarte

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