O jornalista catalão Gerard de Josep não teve dúvidas quando soube que ia ser pai: inscreveu-se em aulas de paternidade criadas especialmente pela Câmara Municipal de Barcelona para promover o envolvimento dos homens na luta pela igualdade. Gerard disse ao El Pais que estas lições foram preciosas – sobretudo por poder partilhar a sua experiência com outros homens na mesma situação, e por ter à mão dois profissionais capazes de desfazer as suas maiores dúvidas: um psicólogo e uma parteira.

A sua opinião é corroborada por Máximo Peña, psicólogo e membro da Associação Espanhola de Psicologia Perinatal, que ressalva a dificuldade de acompanhar uma pessoa com dor, especialmente quando ela é “a sua parceira” e vai dar à luz o “seu” filho.

Referindo-se à informação veiculada na maioria dos estudos, o especialista diz que “os homens costumam definir as aulas tradicionais de preparação para o parto como inúteis” e por isso é preciso “equipá-los com ferramentas que lhes permitam estar presentes naquele que é um dos momentos altos das suas vidas, sendo úteis e facilitando todo o processo”.

Desde 1994 que Esperanza Agraz dá aulas de parto para homens. Foram os comentários das mulheres quando relatavam a sua experiência que a levaram a oferecer sessões exclusivas para pais. “Eles sentem-se muito desamparados em todo o processo; acreditam que não fazer nada é fazer muito, que acompanhar o outro é estar um passo atrás, nos bastidores, que isso não é ‘coisa de homem’”.

Nas suas sessões, os alunos tentam ver a diferença entre acompanhar, dirigir ou interromper o caminho que a mulher escolheu para realizar o trabalho de parto. Por exemplo: “Percebem que dizer à mulher como deve respirar não é acompanhar, é dirigir”, explica Agraz.

Mas deve ou não o pai acompanhar o trabalho de parto?

Numa entrevista de 2016, o obstetra francês Michel Odent afirmou-se convencido de que, atualmente, “a presença habitual do pai na sala de parto, é uma das principais razões para este se complicar.

Máximo Peña reconhece que o argumento do obstetra pode ser verdadeiro nalguns casos, mas acredita que “não é forte o suficiente para deixar os homens fora de uma experiência tão importante como é o nascimento de um filho”.

O que o pai deve e não deve fazer no parto?

“O papel do homem não está definido e fica dependente das regras do hospital”, defende Peña, que, apesar dessa falta de definição, acredita ser dever do pai trabalhar para tornar calmo e estável o processo que acompanha o nascimento. “O papel deles é estarem atentos e responderem de forma serena e acertada às necessidades e solicitações das mulheres. É importante que saibam manter a calma e transmitir essa confiança. Também devem respeitar e apoiar qualquer decisão que a mulher tome”. Por exemplo, se ela quer ou não anestesia epidural. Máximo Peña diz que “por vezes a mulher só precisa de saber que não está sozinha, e o homem pode limitar-se a apertar-lhe a mão ou a limpar-lhe o suor da testa”.

Esperanza Agraz defende que o parto é, acima de tudo, um momento de sensibilidade. Por isso aconselha os pais a estabelecerem contacto visual com as mães, não se poupando a carícias e gestos de ternura.

No caso de as mulheres perderem a cabeça, é bom que eles saibam manter a calma e perceber que não são o alvo da fúria delas. “É essencial que o homem seja uma ajuda e entenda que qualquer reação mais agressiva da mãe não é nada de pessoal contra ele”.

E o que é que o pai não deve fazer em nenhuma circunstância? Agraz explica: “A mulher sabe o que tem de fazer na hora do parto e precisa de confiar no seu empenho e nos profissionais que a estão a acompanhar”. O pai não deve, nunca, “duvidar, julgar ou mostrar-se impaciente”.

Máximo Peña defende que não é preciso perguntar constantemente à mulher como está ou como se sente: “Quanto mais calmo o homem se mostrar, melhor. É proibido controlar, criticar e culpar. A impaciência está fora de causa e a regra é simples: a protagonista do parto é a mãe”.

E se o pai não quiser assistir ao parto?

Michel Odent afirmou na entrevista atrás citada que, em 1953, quando era apenas um estudante de medicina numa maternidade em Paris, jamais imaginou que o pai do bebé pudesse assistir ao parto. Hoje é algo que não se discute, o que também pode ser assustador para alguns homens. “De excluir o pai passámos para uma situação em que todos os homens têm de estar presentes na sala de parto, caso contrário são considerados maus pais. A pressão é terrível”, diz Esperanza Agraz. “O homem que não quer acompanhar a mulher no parto tem o direito de fazer valer a sua vontade sem ser censurado. Se ele acha que não pode ser útil, é preferível arranjar outra companhia”, defende Máximo Peña, lembrando, porém, que é uma decisão que deve ser bem pensada.

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