“Se pudermos prolongá-lo [o estado de emergência] por um pouco mais, seria o ideal. Contudo, os decisores têm de pôr na balança outras variáveis, tais como o funcionamento da economia, das escolas e da vida em si”, afirmou, em entrevista à Lusa, o especialista, que é também presidente da Associação Moçambicana de Saúde Pública (Amosapu).

João Schwalbach é igualmente diretor da Escola de Ciências Médicas do Instituto Superior de Ciência e Tecnologia (ISCTE) de Maputo e foi diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a maior do país.

O médico avançou que as restrições impostas pelo estado de emergência poderão ajudar o país a conter um número excessivo de casos que possam surgir em pouco tempo, contribuindo para o “achatamento da curva”.

Apesar de o aumento de casos de infeção pelo novo coronavírus estar imparável em Moçambique, o especialista considerou que o quadro ainda não é preocupante.

“Não considero a subida de casos vertiginosa, se compararmos com os observados e registados noutras regiões do mundo. Felizmente, eles [os casos em Moçambique] até estão abaixo do presumível e isso deve-se a várias circunstâncias”, declarou.

Essa propagação menos acelerada, no entendimento do presidente da Amosapu, deve-se precisamente às medidas impostas no âmbito do estado de emergência, nomeadamente o distanciamento social, encerramento de locais de concentração de pessoas, proibição de aglomerados e restrições na mobilidade.

“Se essas medidas não estivessem a ser cumpridas, apesar de não estarem a ser cumpridas completa e totalmente, o número de casos seria, naturalmente, muito maior”, frisou Schwalbach.

O comércio informal, deficiente sistema de transporte público, aglomerações de pessoas e falta de uso de máscara estão na origem do contínuo aumento de casos no país, observou.

“Esses fatores preocupam-nos, pois poderão determinar, sim, um explosivo crescimento destes números, principalmente, por já existir contaminação comunitária”, declarou o presidente da Amosapu.

Aquele médico considerou o desconfinamento inevitável, mas alertou para a necessidade de uma retoma com “prudência e cuidado” à normalidade.

“Há que se cumprir as regras com rigor e inteligência e reaprender a viver uma existência diferente, mas prenhe de responsabilidade, liberdade e dignidade”, frisou.

João Schwalbach defendeu que “ainda é possível” Moçambique retardar por mais algum tempo o pico da doença, mas reconheceu ser difícil, porque já há locais de transmissão comunitária no território nacional.

A Assembleia da República de Moçambique ratificou na segunda-feira a prorrogação do estado de emergência pela terceira vez - o máximo previsto na Constituição - com levantamento faseado de algumas restrições.

As escolas vão reabrir faseadamente, voltará a haver ligações aéreas internacionais com alguns países, será permitido mais pessoal nos locais de trabalho e os museus poderão reabrir.

Moçambique tem 883 casos acumulados de COVID-19, com seis mortes e 229 recuperados.

A pandemia de COVID-19 já provocou mais de 502 mil mortos e infetou mais de 10,20 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

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