Estreia domingo a peça “Yerma”, apresentada pela Ecateatro, uma história sobre a esterelidade feminina e masculina, mas mais do que tudo, sobre a pressão do papel social dos homens e das mulheres

Yerma vive no mato, como tantas outras mulheres. É casada com João, que trabalha na machamba, como tantos outros homens. Como muitas mulheres, que calam o seu desespero, Yerma está casada há tempo demais para não ter filhos. Vê as amigas carregarem crianças às costas e pergunta às mais velhas porque não gera ela, porque está seca.

“Yerma” foi escrito por Frederico Garcia Lorca, e, embora o autor espanhol não tenha pensado em Moçambique quando a escreveu, a verdade é que o desespero e a impotência de Yerma traduz bem o drama de muitas mulheres moçambicanas estéreis. Esta é a história que a a Ecateatro, espaço cénico da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, apresenta até final de Outubro.
Nos dias de hoje, o assunto quase parece antiquado para jovens actores na casa dos 30 anos. Mas, ao entrevistá-los rapidamente se entende que mesmo para as gerações mais novas de moçambicanos, o assunto continua na ordem do dia.

Nilza Laiça, com 21 anos, no curso de encenação e encenadora assistente de “Yerma” diz que “a esterelidade é um assunto pouco falado. As mulheres são vistas como um objecto sexual, uma máquina reprodutora. Se não tem filhos qual é a razão de viver, de ser mulher?”. Horácio, que faz de João, marido de Yerma na peça, admite que não é casado nem tem filhos. “Mas quero casar um dia. Se não tiver filhos, será que troco de mulher? Não sei. Conheço muitos homens que se separaram por causa disso”. Em Moçambique, e noutros tantos países, a mulher carrega o peso de ter de ser mãe. É um peso social, mas também pessoal. Muitas sonham desde meninas vir a ter uma família grande, toda saída do seu ventre. Mais do que uma carreira, até quase mais do que ser esposa, ser mãe é a sua função nesta vida. E se ela não existe, por acaso do destino, então de que serve ser mulher?

“Yerma” traz à tona de água outro assunto quase tabu em Moçambique: a esterelidade do homem. Ao longo da peça, o público entenderá que, afinal, não é o ventre de Yerma que é seco, mas sim João que não pode ser pai. Na sociedade machista moçambicana, onde o homem tem mais poder, é ao macho que compete sustentar a família, fazê-la e espalhar filhos pelo mundo. Não poder gerar é pior que perder a sua função na vida. É perder a sua essência. Se um homem não pode ter filhos, o que é ele? Deixa de ser homem.

O fim trágico de “Yerma” mostra bem as consequencias de tabus sociais de vida de cada um, mas sobretudo que o papel social, que cada um de nós tem, acaba por ser mais do que um caminho a seguir, mas uma pressão a respeitar, com a ameaça de ser renegado socialmente.

A peça estará patente até finais do mês, no Centro Cultural da Universidade, aos fins de semana. Domingo estreia no mesmo local, pelas 18.30.

Marta Curto

08 de Novembro de 2011

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